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A culpa é do protocolo, o que achas? Por Alberto Consolaro

19/06/17 07:00
Divulgação
A forma protocolar uniformiza procedimentos, mas corre-se risco nas relações!

Penso além do que deveria e acabo achando explicações que acabam assustando eu mesmo! Quero dividir uma dessas com vocês.

"Protocolo" tem vários significados, eis 'apenas' oito deles: 1. Selo que os romanos punham nos registros de atos públicos, 2. Ata ou registro de atos oficiais, 3. Registro de conferência ou negociação internacional, 4. Livro de registros da correspondência de uma empresa, universidade, repartição pública, 5. Cartão ou recibo em que se registra a data e número de ordem no livro de protocolo, 6. Conjunto de normas reguladoras, 7. Normas rígidas de procedimento, formalidades e etiqueta, 8. Normas e especificações técnicas que regem a transmissão de dados.

A geração Y com 25 a 35 anos chegou ao poder faz alguns anos e uma de suas características marcantes é valorizar a vida pessoal, abrindo mão, sem culpa, da vida profissional para realizar um objetivo estritamente pessoal. Na época da geração X e das anteriores as pessoas trabalhavam muito além do horário e com mais afinco, levando-se inclusive trabalho para casa. As pessoas se comprometiam com empresas e instituições, a prioridade era a vida profissional, abrindo se mão de objetivos pessoais e familiares. Se certo ou errado não consigo analisar e julgar, mas são posturas diferentes como água e vinho. Que cada um reflita e tire suas conclusões ou que registre no consciente as suas reflexões!

O ambiente informatizado ou virtual e a forma de pensar da geração Y à frente das empresas e serviço público colocou à mostra um dilema quando em uma mesma situação se tem pessoas competentes dos dois perfis. Quem vamos promover ou escolher para os cargos melhores: 1. Os que se dedicam mais tempo e trabalham muito mais se comprometendo com a empresa e serviço público ou, 2. Aqueles que cumprem seu horário, faz o necessário e quer voltar à sua vida pessoal e familiar assim que o básico foi realizado? E agora?

Para uma pessoa se mostrar competente na visão Y de ver as coisas, não se precisa e não se deve ficar além do horário e nem mesmo levar trabalho para casa! Também não precisa morrer de amores pela empresa ou serviço público e nem mesmo agradar o chefe ou quem quer que seja, basta seguir o protocolo da função contratada! Mais que isso, pode ser puxa-saquismo!

Siga o descrito no protocolo, nada além disso. A estatística dos relatórios gerados pelos registros no protocolo acaba criando uma avaliação de eficiência técnica no computador. Esta avaliação da competência da pessoa será independente de emoções como humor, educação, usuário feliz, forma de convivência com colegas, superiores e inferiores. O que vale é o dado gerado pelo relatório do protocolo, ponto. Se foi bem nas emoções e relações não importa!

Para que esta forma "protocolar" não seja burlada se tem a regra protocolar: é proibida a presença da pessoa na empresa ou serviço público fora do horário de trabalho. Alega-se que a pessoa pode ter problemas com acidentes de trabalho ou que pode entrar na justiça trabalhista pedindo remuneração para horas extras.

Em muitas empresas e serviços públicos este foi o motivo para se instalar o controle eletrônico de presença: somente podem trabalhar no horário, nem chegar mais cedo ou ficar até mais tarde! A atividade profissional somente poderá ser avaliada pelos números dos relatórios, um adeus às emoções e relações humanas. Isto pode gerar um ambiente de trabalho pesado, competitivo e predatório!

A vida com base em protocolos deixa tudo registrado no computador como formulários, vídeos, entrada e saída de documentos, pessoas e dinheiro. O preço do adeus às emoções e relações humanas no trabalho está promovendo a morte do 'jeitinho brasileiro' que beira os sinônimos de propinas, comissões e caixa-dois. E isto é muito bom!

Mas, os protocolos extrapolam para o cotidiano pessoal no condomínio, apartamentos, casas, carros, telefones e redes sociais! Ah restaurantes, bares, academias, boates e viagens de férias. Nossa, somos protocolados em tudo! E as emoções e relações humanas protocolares são boas?

Agora somos controláveis e é por isto que "todos" estão sendo pegos: é o protocolo gente! Aliás, o protocolo avisou: meu espaço acabou! Fui.

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.

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