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As regras que nos convêm

24/04/17 07:50
João Jabbour

Não anda nada fácil achar graça nas coisas da vida para escrever crônicas, mas meu sobrinho Enzo, de apenas 3 anos, deu-me uma deixa. Semana passada, ao chegar pela primeira vez à escolinha de futebol, com 'chuteirinhas' reluzentes dependuradas nas pontas dos dedos, perguntou, de cara, ao professor: 'Como as coisas funcionam por aqui?", para espanto geral.

A despeito da vivacidade do Enzo, não é normal uma criancinha ser tão racional e dar a impressão de que já conhece o mundo, ou seja, saber que ele funciona atualmente conforme as regras estabelecidas por cada um, segundo seus interesses, relativizada cada vez mais a lógica da vida em sociedade.

A lei e a ética não têm feito muito sentido nos tempos mais recentes, ainda que a primeira mande para a cadeia e a segunda para o limbo da sociedade. O cárcere ganhou ares glamorosos com prisões de famosos e de chefões do crime que se parecem atores de cinema e apunhalar a moral não é tão grave assim...

Não sei se já repararam. Desde as atividades mais simples, como o atendimento a um cliente no balcão, às mais amplas, como o ato de governar um povo, cada qual faz as regras conforme suas conveniências, humor e interesses. Perdemos, definitivamente, o sentido altruísta do coletivo, da ajuda mútua, do servir ao próximo, do 'cliente que sempre tem razão', embora o freguês também tenha, igualmente, perdido a compostura e extrapolado os seus direitos e, acima de tudo, a boa educação.

Outro dia, no açougue perto de casa, uma mulher, nariz empinadíssimo, 'dona da verdade' e irascível, aplicou uma descompostura no açougueiro em voz alta, intolerante, alterada, de forma desproporcional à falha que o mesmo havia cometido. Ao invés de cortar o peito do frango em bifes, cortou em tirinhas. Já estava reparando o equívoco e providenciando o corte certo. A equivocada ganhou olhares de linchamento moral de todos os que estavam no local e, ainda assim, achou bonito se portar como a babaca do pedaço.

De outro lado, há balconistas e atendentes em geral que te olham como se você estivesse no estabelecimento implorando por um favor e 'enchendo as paciências' deles. Há os que nem te olham, apenas sussurram palavras quase inaudíveis de cabeça baixa, como se estivessem de luto e mau-humor. E o comportamento 'moderninho ansioso' produziu um terceiro time: o dos que seguem falando com o (a) colega de trabalho ao lado enquanto te 'atendem'. Você se sente invisível e fica intimidado para perguntar algo ou mesmo agradecer. Não sabe o que vem de resposta se interromper o animado colóquio alheio.

Vivemos tempos de distonia comportamental. Mas, calma lá, isso não é motivo para alguém achar que pode tudo, a seu bel prazer. A liberdade não é absoluta para quem vive em sociedade e dela e aproveita. O livre arbítrio tem limite na medida em que o outro tem direitos a serem respeitados. Isso é básico e todos sabem. Então, por que não cumprimos com preceitos civilizatórios tão óbvios?

Será que a liberdade que conquistamos com o progresso da ciência e a evolução dos modos e costumes nos embriagou a ponto de nos fazer perder o juízo?

Acho que não. Liberdade é um bem sagrado e, como tal, deve ser cultivada sempre, para ser mais útil ainda à humanidade. Porém, há que se ponderar.

Fico com a análise da antropóloga e professora Sonia Maria Giacomini: "Há uma ideia de que ser livre é poder agir para desfrutar de um prazer imediato. Isso se traduz no aparecimento de relações menos estáveis, tanto profissionais quanto pessoais". Ao que o professor e doutor em história da filosofia Rogério da Costa Santos completa: "Isso era impensável nos primeiros anos do cristianismo, em que a liberdade estava associada à superação das tentações da carne e do corpo pecador".

Então, ao que parece, estamos distônicos pelo 'porre' de liberdade que nos faz bestamente ansiosos pelas possibilidades materiais que nos apresentam.

O remédio? Talvez resgatar valores humanos e imateriais da alma, perdidos na louca corrida contemporânea pelo sucesso e a fugaz sensação de bem-estar.

Olhemo-nos no espelho de nossa história!

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