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O fim da 'Nova República'

17/04/17 00:20
João Jabbour

Nasci em 1961. De 1964 a 1985, uma ditadura. De 1986 a 2017, uma farsa democrática. Será que eu e os de minha geração perdemos esse tempo todo, 53 longos anos? Acabamos de assistir ao fim da chamada 'Nova República', batizada com esse nome pomposo para indicar um novo tempo de esperança, de retomada das rédeas do País pelo povo, após um regime de exceção. E, agora, nada?!

Nem uma coisa nem outra. Não foram anos perdidos e nem a mais recente experiência democrática, que perdura há 31 anos, resolveu nossos problemas enquanto nação. Na história pessoal ou coletiva, assim como na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, dizia, com boa dose de razão, o químico francês Lavoisier.

Foi ao mesmo tempo hilariante e triste assistir aos vídeos das delações premiadas da Odebrecht, na última semana. Pai, filho e executivos relatando a maior bandalheira com o Estado brasileiro como quem conta uma história de pescador esperto na mesa de um bar. Semblantes serenos, animados em alguns instantes, eufóricos em outros. Parecia que estavam se consagrando naqueles relatos. Teve até um advogado em uma das delações que se conteve para não sorrir, marotamente. Achando graça do que, cara pálida?

Não sobrou um nome de peso daqueles que nos acostumamos a ver e votar nas últimas três décadas. Gente que lutou pela volta das liberdades pessoais e coletivas, que ajudou a fazer uma nova Constituição (1988), que fez discursos e escreveu artigos 'ensinando' como construir um País forte e soberano, que arrastou multidões às ruas em campanhas memoráveis... Todos se banqueteando no mínimo com o caixa 2, tão ou mais indecente que o dinheiro da corrupção que vai direto para o bolso e não para as campanhas eleitorais.

É cedo ainda, estamos no calor dos fatos, mas é grande a chance de os livros de história no futuro decretar 2017 como o ano em que acabou, melancolicamente, a 'Nova República', que já teve no Hino à Independência uma de suas marcas: "...Ou ficar a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil...".

Nem a Pátria se libertou nem um político graúdo sequer se arranhou para mudar a cultura do "levar vantagem em tudo". Apenas sobreviveram politicamente em siglas difusas e alguns ainda vão acabar se safando dessa também porque o povo brasileiro, em grande parte, segue "deitado eternamente em berço esplêndido". (Sei que esta parte do Hino Nacional se refere ao País, geograficamente falando, e não a pessoas preguiçosas, mas peço licença para inverter o significado)

Chegamos ao fundo poço moral e economicamente, com uma coisa determinando a outra. Portanto, não dá para ficarmos apenas lamentando o que todos sabíamos e apenas não estava delatado judicialmente de forma premiada com vídeos para quem quisesse assistir.

Temos de seguir adiante. O Brasil da política não vai parar. O da economia, muito menos. E o da Lava Jato também. Temos um governo em exercício, com propostas reformistas, o que não é errado neste momento, haja vista que não foram feitas antes e que as mudanças terão de ser estruturais daqui para frente, caso contrário, ficará tudo como está.

Só temos de discutir, com serenidade e desprendimento, qual é o ponto das mudanças. Quem vai pagar a maior parte da conta? Quem tem mais, certo? Há sérias dúvidas, porque quem está encaminhando a tramitação das reformas é a mesma turma, basicamente, que achincalhou a política e o Estado, cuja maioria absoluta representa interesses do grande capital privado.

É possível que o poder possa estar mudando de mãos no País, momentaneamente. Nunca o Judiciário e o Ministério Público intervieram tanto na política. Juízes, desembargadores, promotores e procuradores não vão admitir que têm um projeto de poder, e não devem ter mesmo. Mas os cientistas políticos ensinam que o poder não tem vácuo, alguém sempre o estará ocupando.

Então, mãos à obra...

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