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Segundando

O mundo é real e emocionante

10/04/17 13:05
João Jabbour

Sábado à noite, em casa, lá no fundo, turma foi embora, passava das 23h24, céu estrelado, só eu e Babalu (cachorra da Anabella, esperando a rebarba dos petiscos), decidi ouvir rádio ao invés de checar pela octagésima nona vez no dia o whatsApp ou assistir à TV e sua enfadonha apologia do sexo, da emoção com alegria, emoção com tristeza ou da morte (estudo revela que 80% da programação da televisão nacional se baseia nesse quadrinômio).

Ando entediado demais para ficar com a boca escancarada, cheia de dentes, na frente de uma televisão, esperando a morte chegar e ainda correndo o risco de o controle remoto ou o sinal da TV a cabo enguiçar e travar no Big Brother. (Me ajude, Raulzito, a ser uma metamorfose ambulante!)

Bom, o que fiz? Como disse, estava lá fora, outono, meia-estação, tempo fresco, quando peguei um radinho Sony japonês com capa de couro de minha coleção, que havia preparado para levar ao estádio ver o Noroeste no dia seguinte, com pilhas Rayovac. Ergui a antena (nem precisava, mas é legal) e sintonizei no programa do Barbosa Júnior (Auri Verde), 'Rádio Alegre', que deve ser o mais longevo do Brasil, quiçá da Terra. Naquele instante, tocava Roberto Carlos ('As canções que você fez pra mim').

Meu primeiro emprego na profissão foi na rádio Auri Verde, em 1985. Barbosa já fazia o 'Rádio Alegre' e ele continua o mesmo, a voz é a mesma, a alegria é igual, a empatia com o ouvinte não mudou. Acho que ele nem existe mais... Barbosa e o microfone fundiram-se e se tornaram um gramophone do tamanho de Bauru que espalha música e faz companhia aos corações solitários. Uma lenda da era de ouro do rádio.

Barbosa é a memória viva de um tempo romântico, suave, rústico, de valores, em que o estresse não andava nas ruas ao volante, no máximo frequentava um ou outro psicólogo e a palavra nem era estresse...

"Barbosa Júniooooooorrrr". Herói da resistência, que viverá enquanto o rádio existir. Em nossas mentes também, pelo menos nas de quem já colou o ouvido num radinho de pilha...

Este é um texto cheio de reticências porque a emoção aflora nestas pausas como um suspiro, que remete a um tempo em que já foi impróprio levar muito a sério o mundo dos homens, que sempre teve crimes, guerras, corrupção, trapaças, pobres, ricos, mas havia um eixo, o da vergonha na cara, hoje em extinção...

Sair do ciberespaço para viver, por minutos que sejam, o doce sabor do mundo físico é impagável. Pelo menos para mim, que sempre embarco nas ondas médias da saudade de uma época em que tocar nas coisas e nas pessoas atiçava o tato, o olfato, a audição e, como consequência, a visão. E o paladar... às vezes.

Hoje, basicamente, nos restringimos a um dos cinco sentidos. A Internet não se pega com as mãos, não tem cheiro, não tem som próprio dela mesma, nem gosto para sentir na língua. Sobra apenas a visão, que nos faz contemplativos, inertes diante da 'ditadura' virtual. Mas são apenas luzes, sem a concretude que nos faz gente. E ainda se calunia, se assedia, se desrespeita, se rouba, se trai e se prostitui pela internet.

Não estou me filiando ao movimento anti-internet, que já existe na Europa, na Alemanha, onde surgiu para se contrapor à dependência que ela causa. Não sou de negar os avanços da tecnologia e da ciência. Mas os saltos da modernidade sempre despertaram reações, em todas as épocas. O que não é ruim, porque ajuda a estabilizar seu papel na civilização. A Alemanha é um dos berços do pensamento moderno. Lá eles não engoliram a ideia de que a internet é uma unanimidade. Faço coro.

Sábado à noite, me juntei ao Barbosa Jr., que não dá e-mail nem whatsApp para os ouvintes enviarem pedidos musicais. Ele atende ao telefone, com fio, e, enquanto um vinil roda na agulha, anota com caneta Bic o pedido da próxima canção que vai preencher um coração vazio. E deseja uma grande noite, de viva voz, a quem o ajuda a fazer o rádio mais alegre..

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