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Brasil, tragédia e comédia

29/05/17 07:00
João Jabbour

Quando eu era menino adolescente lá em Bernardino havia um grupo de garotos de calças curtas que adorava fazer tudo em conjunto - nadar, jogar bola, pescar, ir aos bailinhos, passear no jardim... A Turma da Bomba. Éramos amigos, mas não tínhamos um estatuto que regesse nossa conduta, por isso, as decisões eram tomadas ao sabor do interesse da maioria e, por vezes, na base do 'quem pode mais, chora menos'.

Coisas de garotos que mal sabiam o que era a complexidade ou a ética do mundo e das relações humanas. E olha que o mundo era bem menos complexo naquela época. Detalhe, só para ilustrar como éramos toscos: na Turma da Bomba não entravam mulheres. Aquela fase ainda era a de achar que os homens eram os 'bons da boca'. Filhos autênticos do machismo nacional que vem de muito longe.

Lembro-me que havia um 'líder' e sua palavra tinha mais força de decisão. Era o mais robusto fisicamente, tresloucado, encarava os caras grandões das outras turmas quando era necessário brigar e ganhava legitimidade para manter-se no 'cargo' de chefe. 'Jogava' capoeira, era bom de bola, nadava bem... Tinha suas qualidades. Juntos, aprontávamos muito... (sem mais detalhes).

Mas por que contar esse fragmento banal de minha vida juvenil? É que, outro dia, me peguei olhando aqui de longe, quase mil quilômetros de distância, a baderna e a confusão em que Brasília se encontra e pensei: como são infantiloides esses políticos brasileiros! Ao invés da bronca e da raiva usuais, preferi vê-los pelo prisma do amadorismo bisonho de seus atos. Lembrei-me, então, de meu grupo de amigos, mas com uma grande, enorme, brutal e estratosférica diferença: tínhamos o benefício da imaturidade, da jovialidade e da parca educação que só viria mais tarde com todas as suas letras (ou nem todas...).

Os políticos, a maioria veteranos de vida, com mais de meio século vivido cada um, que, em tese, seriam os cidadãos mais preparados da sociedade para organizar os destinos de seus patrícios, fazem um espetáculo deprimente de sem-vergonhice, mas também de ingenuidade e idiotia.

A última grande cena, entre tantas, desta ópera bufa foi o presidente recebendo um empresário pagador de propina à noite em sua casa, fora da agenda oficial do maior cargo público do País, no meio do turbilhão de denúncias que assola políticos e empresários, tentando, ao mesmo tempo, não concordar explicitamente com ele, mas 'deixando barato' o relato de crimes que seriam ou foram cometidos. No meio disso tudo, grunhidos de um lado e um sujeito forçando um diálogo do outro. Ridículo!

Não há como não lançar mão do velho aforismo: 'Seria cômico se não fosse trágico'.

Brasília (a do poder) é uma piada de péssimo gosto. Não é de hoje. Viajei algumas vezes à Capital Federal para reuniões do comitê editorial da Associação Nacional de Jornais. Tudo lá transpira lobbies e 'jeitinho'. Até um mendigo na rua é capaz de lhe oferecer uma boa solução a seu problema em algum órgão federal porque tem algum 'contato quente' lá.

Ah, mas só os políticos são bizarros? Não, todos, devemos ser um pouco, cada qual com a parte que lhe cabe neste latifúndio de imoralidades. Outras instâncias do poder também. Até porque tem gente achando que a saída é fora da via política. Se for, prepare-se para uma bizarrice populista de esquerda ou de direita. Que é tão ou mais caricata do que o que temos aí hoje.

Vendo o canal Viva, sábado, que reprisa programas de sucesso da televisão, assisti à Chico City. O gênio Chico Anysio, mais do que ninguém, captou a face hilariante da política. E da nossa sociedade também. Por isso surgiram Walfrido Canavieira, Alberto Roberto, Coalhada, João Ninguém, Lobo Filho, Nazareno, Setembrino Republicano, entre tantos outros memoráveis. Que país pronto para um cérebro privilegiado!

Tragédia e comédia andam juntas nas repúblicas desde sempre. Clássicos da literatura retratam este cenário, onde todos nós temos um papel.

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