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Espiritualidade

22/05/17 07:00
João Jabbour

A significativa palavra do título não me sai da cabeça desde sexta-feira. Quando isso acontece, é porque me representa algo a ser refletido. Durante a verificação de exames e check-up de rotina, meu médico anunciou algo que, intuitivamente, já percebia, mas que agora ganha contornos de investigação científica: a espiritualidade pode ser considerada um dos grandes fatores de prevenção e tratamento de doenças. Neste caso, as do sistema cardiovascular, mas vale para todos os males do corpo. E da alma...

Ele acaba de chegar de um importante congresso médico em que um dos fóruns de discussão mais concorridos versava sobre o poder daquilo que não é apenas a intensa atividade religiosa ou mística, tradução mais literal de espiritualidade. Mas também o que a psicologia junguiana, por exemplo, chama de individuação. Ou o autoconhecimento, a ética de vida, enfim, o cultivo de virtudes inatas da essência humana que nos ajudam a manter o equilíbrio vital entre a alma e o corpo físico.

Já que não podemos mudar o Brasil coletivamente de forma tão rápida como a nação precisa, mudemos nossas atitudes, tentando, antes de tudo, um exame de consciência, uma autocrítica, sem moralismo e até mesmo sem abrir mão de convicções ideológicas ou filosóficas, mas baseando-nos firmemente nas premissas universais de como podemos contribuir com o avanço da civilização. Sem neuras, sem egoísmo ou ganância, desapegadamente.

Por nós mesmos e por nossa saúde. Importante: sem deixar de atuar em grupos sociais, partidos políticos, associações de classe, sindicatos, clubes de serviço e tudo mais o que nos organiza enquanto sociedade. Esse texto, portanto, não é, de forma alguma, um convite à individualização ou alienação, comportamento que causa dissabores à espécie humana e serve apenas a interesses de quem é dono do poder político e econômico e precisa do mundo fragmentado para manipulá-lo à luz de seus projetos de dominação.

Uma forma de resistência à desarmonia que hoje nos afeta deve começar em cada um. A filosofia, de uma forma geral, defende isso. Mude-se o homem para depois mudar os sistemas. Já as ciências sociais avaliam que o homem é fruto do meio, por isso, mudemos primeiro as formas de nos organizarmos e interagirmos em sociedade. Particularmente, acho que dá para conciliar as duas boas práticas, que são complementares e não excludentes. É um enorme desafio em meio à crise global de confiança em gente e instituições, o que tem gerado decisões, coletivas e individuais, muitas vezes extremadas.

Voltando à constatação da medicina sobre os bons efeitos de conhecer e agir em prol de si mesmo, além de demonstrarem que as pessoas mais espiritualizadas são mais felizes, pesquisas realizadas ultimamente em universidades americanas apontam que elas também têm maior facilidade em sair de processos depressivos, menos chance de se suicidarem, menor envolvimento com álcool, cigarro ou drogas, são menos ansiosas, não têm tantos medos e, as casadas, mais estabilidade e satisfação em seus relacionamentos.

Para o filósofo grego Sócrates, a alma do homem é a sua consciência. Cuidar de si mesmo é cuidar da própria alma mais do que do corpo. Segundo ele, as pessoas deveriam concentrar seus esforços em serem virtuosas para si mesmas, para seus amigos e para a comunidade a que pertencem, pois a virtude deve ser conquistada também pelo grupo humano, pela polis. Dizia isso justamente em uma época em que os cidadãos de Atenas adoravam o culto ao corpo físico.

O mesmo Sócrates era um crítico da ideia de democracia, pois achava que a sociedade deveria ser governada apenas por gente sábia, por pessoas diferenciadas em sua capacidade intelectual e moral. Acho que não devemos desconsiderar essa reflexão.

A mediocridade é a grande geradora dos desvios de comportamento. São criminosos, mas são patéticos os ladrões do dinheiro público. Olhe bem nos semblantes idiotas de delatores e delatados. E pensemos também em nossas atitudes cotidianas, se não são parecidas com as deles do ponto de vista ético, com a diferença apenas de que ocorrem em uma escala menor... Boa semana!

 

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