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Réquiem para Belchior

01/05/17 07:00
João Jabbour

Eu era apenas um rapaz latino-americano sem parentes importantes e vindo do interior quando conheci Antônio Carlos Gomes Fontenelle Fernandes, o Belchior. Foi, se não me engano, em 1988, o dia não me lembro, por volta de 16h30, no Bar do Epa, que ficava na esquina mais cultural de Bauru nos anos 80, confluência da Rio Branco com a 7 de Setembro, perto da famosa Casa da Cultura, onde fervilhavam ideias libertárias e da vanguarda artística e política da época. Não havia lugar melhor para conversar, maravilhado, com um dos compositores e cantores que fizeram a trilha sonora de minha vida.

Este aprendiz de cronista era um jovem repórter da 96 FM, então Rádio Cidade, barbudo, com uma inseparável bolsa de coro a tiracolo. Achava, naquele momento, que não era como nossos pais e que nem nossos ídolos eram os mesmos. Mas não se preocupe, meu amigo, com as coisas que eu vou lhe dizer. Isso é somente uma crônica de despedida. "A vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior..."

Era para ser um flash (live, no linguajar atual) de poucos minutos, afinal, em rádio, o tempo é precioso. Mas a entrevista com Belchior durou pelo menos 20 minutos, uma eternidade para os padrões das ondas radiofônicas de um programa musical. Belchior faria show, naquela noite, na antiga sede da Luso, no Estoril.

Papo som dentro da tarde, eu não tinha nenhum amigo importante e naquele dia ganhei um. Depois da entrevista, ficamos eu e ele, por eternos momentos, tomando alguma coisa que talvez fosse cerveja ou vodca, não importa. Ele também estava sozinho. Não era um artista cercado de empresários, assessores e seguranças. Pense em alguém que você admira bastante, um ídolo, e imagine sentar-se com ele e conversar descontraidamente. Tudo foi divino e maravilhoso.

O tempo andou mexendo com a gente, mas não me tirou aquele dia da memória afetiva. Nem as canções deste cearense que me ajudaram a filosofar sobre as coisas da vida com generosidade e, talvez, um pouco de graça e leveza. Belchior pregou a difícil arte do desprendimento, do desapego. Pregou e praticou! Tanto que viveu o que compôs e cantou, principalmente nos últimos 10 nos, período em que sumiu, para desespero de todos nós e espanto de quem tem pouca sensibilidade e acha que o mundo é uma coisa à-toa.

"Ele tinha a ver com nossos sonhos e sentimentos", me disse, entristecido, Arnaldinho Ribeiro, no WhatsApp, ontem, por volta do meio-dia, quando soube da notícia. "Ele partiu nos braços das velas do Mucuripe", me escreveu Olival Miziara, minutos depois. À essa altura, uma enorme corrente estava formada entre nós, que somos jovens porque a poesia de Belchior nos mantém assim, em essência.

Na música "Comentários a respeito de John', ele dizia: "...Sonho e escrevo em letras grandes de novo// pelos muros do país// João, o tempo, andou mexendo com a gente sim// John, eu não esqueço, a felicidade é uma arma quente// Queeeeeente, queeeeeente//. Saia do meu caminho// eu prefiro andar sozinho// Deixem que eu decido a minha vida// Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol// Porque bate lá o meu coração.." Não sei bem ao certo, mas o John parece ser John Lennon, que no famoso "Álbum Branco" tinha, com Paul, uma canção cujo título original era "Happiness Is a Warm Gun in Your Hand" ("Felicidade é uma Arma Quente na sua Mão"). Tenho, além dos Beatles e do meu nome, outros motivos para me identificar com esta obra-prima.

"Se você vier me perguntar por onde andei// No tempo em que você sonhava// De olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava// Sei que assim falando pensas// Que esse desespero é moda em 76// Mas ando mesmo descontente// Desesperadamente eu grito em português// Mas ando mesmo descontente// Desesperadamente eu grito em português// E eu quero é que esse canto torto// Feito faca, corte a carne de vocês". A música chama-se "A Palo Seco" e retratou um momento de aridez de liberdade, nos carrancudos anos 70. Essa foi a forma poética com que Belchior reproduziu a sensação de nós, jovens daquela época.

Na Divina Comédia Humana nada é eterno. Nem artistas como você, meu imortal amigo Belchior...

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