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Sincericídio

05/06/17 07:00
João Jabbour

A palavra do título significa falar a verdade a alguém quando não deveria. Então, quer dizer que nem sempre devemos falar a verdade? É um pequeno dilema existencial que incomoda a humanidade, imagino, desde o primeiro homo erectus. Devemos contar a verdade o tempo todo ou não?

E quando temos de mentir na frente das crianças e aí nos saímos com aquela desculpinha esfarrapada da 'mentirinha branca'? Mentir é uma situação oposta, mas vivemos essa dicotomia permanentemente. Verdade X mentira, com a sinceridade nos pondo contra a parede de nossa consciência em momentos cruciais.

Por vezes, e principalmente agora com o volátil e veloz mundo digital, a verdade escapa indevidamente e cria tremendas saias justas. Tenho visto com frequência em redes sociais postagens 'sem querer' de comentários irados contra pessoa ou pessoas que, com o acidente provocado por um envio errado, acabam sabendo o que colegas ou familiares pensam, realmente, sobre elas. Um deslize moral difícil de reparar, para deleite de quem não está em nenhum dos dois polos do sincericídio involuntário e assiste a tudo em tempo real, de camarote...

E na política/polícia, então!? Que coisa horroroza ouvir políticos de renome da República em gravações nas quais a cada cinco palavras uma é um palavrão ou difamação. Ok, quase todos falamos palavrão, vício linguístico e mental difícil de conter. Mas quando eles se tornam público e vêm de alguém que deveria ter qualificações de líder, o impacto é bem maior. O exemplo é desalentador nestes casos.

Até mesmo na imprensa já houve casos de colegas brincarem com o texto no momento da edição do jornal e, ao final do trabalho, esquecerem de deletar os impropérios. No dia seguinte, o mundo cai...

Mas estes exemplos, engraçados ao final das contas, não se encaixam na definição de sincericídio porque ocorreram sem que os autores provocassem por desejo próprio. O que cabe bem aqui é um caso muito recente, do jogador do São Paulo Rodrigo Caio, menino bacana, criado com boa educação, ao contrário da maioria dos boleiros, que vêm de situações sociofamiliares nada favoráveis ao desenvolvimento de bons modos. Em um lance do jogo contra o Corinthians, pelo Campeonato Paulista, ele poderia ter feito vistas grossas, omitido-se em relação à verdade, e provocado injusta punição a um adversário que disputou com ele uma jogada. O juiz já estava cometendo o equívoco quando Rodrigo o avisou sobre a verdade.

Foi criticado publicamente por colegas da equipe e até pelo técnico Rogério Ceni que, com sua autoridade, deveria ter apoiado o bom exemplo. Mas a vontade de vencer tudo e a todos em um mundo extremamente competitivo falou mais alto do que a ética. E Rodrigo foi para casa naquele dia com a sensação de que cometera um sincericídio, embora sua consistência moral o tenha mantido convicto de que praticara a melhor ação. Foi elogiado pela maioria dos analistas de futebol e pelos adversários daquele dia emblemático em sua vida e no 'marrento' mundo do futebol.

É dura a vida de quem é sincero!

E quem pratica essa virtude em demasia pode ser seu pior algoz na medida em que nem sempre é necessário se cobrar tanto assim, expondo suas fraquezas, por exemplo. Exigindo de si mesmo um altruísmo fora da curva, pois a resposta alheia a essa boa intenção pode ocorrer em proporção inversamente pior. Quem se preocupa demais em avisar os outros sobre seus defeitos revela um incômodo excessivo com a imperfeição humana por, talvez, achar que não pode ser querido ou amado pelos demais. Então, vive se imolando, como se isso fosse uma condição para ser aceito.

Por outro lado, pessoas preocupadas com a aprovação social tratam de esconder o que têm de bom por temer expor suas virtudes. Para isso, se aplica a quase infalível fórmula da ponderação e do bom senso. O equilíbrio, em geral, fica no meio. Não é preciso ser exibicionista, mas nem tão cruel consigo mesmo.

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