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Doce mistério

10/07/17 07:00
João Jabbour

A vida reserva surpresas. A frase e, principalmente, esta percepção são mais do que sabidas por todos. Quando parece que nada vai dar certo, de repente a situação melhora. Ou, como disse Moacyr Franco antes de se recuperar na carreira artística: quando a noite está mais escura do que nunca, o dia amanhece em luz.

Por que esta introdução? Simplesmente para dizer que são insondáveis e, talvez, infinitos os mistérios da vida e dos fenômenos que nos cercam, pois fogem à total compreensão e tentativas de explicação. Não estou falando em nada que não possamos ver, pegar ou sentir, nada que seja 'fantasmagórico' ou do 'outro mundo', mas sim do dia a dia, das coisas mais simples às mais complexas que acontecem com a gente e com a vida em coletividade.

Certamente, as incertezas e a incompreensão da vida são combustíveis da civilização. Se soubéssemos dominar todas as forças que regem a natureza ou pudéssemos provar e testar a espiritualidade em laboratório, o sentido de viver seria outro. Não sei se pior ou melhor. Não importa.

Para falar de algo concreto, tomemos a gratificante notícia da conquista de um curso de medicina em Bauru, na última semana. Veio no momento mais improvável dos últimos 60 anos em que se fala e luta por isso. Ninguém poderia imaginar que durante a pior recessão da história do Brasil e da USP uma decisão complexa como essa seria tomada.

Imagino que fatos improváveis não podem, simplesmente, ser creditados ao acaso, à aleatoriedade ou a ironias do destino. Para que ocorram em algum momento, nem sempre quando se espera, há muitas ações anteriores, há movimentos, esforços, conjugações, enfim, planta-se e aduba-se até que dê frutos.

O filósofo grego Heráclito dizia que o 'o caráter de um homem é o seu destino'. Ou seja, ninguém se torna o que é por acaso. Trata-se de uma construção e não obra de coincidências. Somos o que escolhemos ser e o que acontece a partir daí não pode ser creditado ao azar, sorte ou infortúnio. E quantas pessoas, vemos por aí, preferem se apegar a argumentos falaciosos para justificar sua história... Ao contribuir decisivamente para o nascimento da física quântica, Einstein se negou a aceitar a interpretação probabilística das coisas. E disse a famosa frase: "Deus não joga dados com o Universo". Segundo ele, tudo o que existe já está determinado e o ser humano simplesmente tenta 'alargar' cada vez mais essa esfera e encontrar uma espécie de fórmula geral do Universo. Já no leito de morte, disse à enfermeira: "Talvez Deus não queira ser observado. Acho que Ele não gosta de curiosos..."

Serendipidade é um neologismo da filosofia que se refere às descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso. Um dos exemplos mais clássicos deste fenômeno está em Arquimedes (287-212 a.C.), matemático e inventor grego, que tomava seu banho imerso em uma banheira quando teve um insight e, repentinamente, encontrou a solução para um problema que o atormentava. Dizem que Arquimedes teria saído à rua nu, gritando: Eureka! Eureka! (Encontrei!). Ele havia descoberto um dos princípios fundamentais da hidrostática, que seria conhecido futuramente como o 'Princípio de Arquimedes'. Foi por um acaso, durante o simples banho? Ou porque sua mente já maturava a teoria e então veio o rebento como consequência natural?

Mas apesar da rápida evolução tecnocientífica e de todos os postulados da razão e das crenças religiosas, nem cientistas nem bispos se atrevem a definir cabalmente a essência da vida. Conseguem decifrar os fenômenos que dela decorrem e propagar dogmas criacionistas, mas não se arrogam o direito de defini-la.

Talvez seja melhor assim.

Doce mistério é a vida.

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