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"Profeta Gentileza"

21/08/17 07:00
João Jabbour

No caderno Ser do JC de ontem, uma reportagem mostrou que José Datrino, autor da famosa frase 'Gentileza gera Gentileza", completaria 100 anos de vida se por aqui estivesse. Ele foi tão feliz na elaboração do bordão que ganhou o apelido de "Gentileza". Para ser mais preciso, "Profeta Gentileza". No auge de minha ignorância, nem sabia da existência de Datrino. Acho que a criação ficou mais famosa do que o criador.

Segundo o providencial Wikipédia, Datrino nasceu aqui pertinho, em Cafelândia. Foi uma personalidade urbana carioca, espécie de pregador, que se tornou conhecido por fazer inscrições peculiares sob um viaduto situado na Avenida Brasil, na zona portuária do Rio de Janeiro, onde andava com uma túnica branca e longa barba. Uma figuraça em forma de andarilho, destas que quase toda cidade tem, mas que raramente são reconhecidos pela elite intelectual como alguém que colaborou com a espécie humana, à exceção do professor Leonardo Guelman, do Departamento de Arte da Universidade Federal Fluminense, e do carnavalesco Joãosinho Trinta, que dedicou a ele o enredo da Grande Rio, em 2001 - "Gentileza, o profeta do fogo".

Ele teve uma infância de muito trabalho, na qual lidava diretamente com a terra e com os animais. Para ajudar a família, puxava carroça vendendo lenha. O campo o ensinou a amansar burros para o transporte de carga. No dia 17 de dezembro de 1961, ocorreu a Tragédia do Gran Circus Norte-Americano, considerada uma das maiores fatalidades em todo o mundo circense. Neste incêndio morreram mais de 500 pessoas, a maioria crianças.

Na antevéspera do Natal, seis dias após o acontecimento, José acordou alegando ter ouvido "vozes astrais", segundo suas próprias palavras, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual. O Profeta pegou um de seus caminhões e foi para o local do incêndio, em Niterói. Plantou jardim e horta sobre as cinzas do circo, local que um dia foi palco de tantas alegrias, mas também de muita tristeza.

Aquela foi sua morada por quatro anos. Lá, Datrino incutiu nas pessoas o real sentido das palavras Agradecido e Gentileza. Foi um consolador voluntário, que confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Daquele dia em diante, passou a se chamar "Profeta Gentileza". A mim, essa história comove. Merece todo o meu respeito.

E, como diz a matéria do Ser, sua frase e atitudes ganham atualidade contundente em dias tumultuados como os que estamos vivendo, tempo de intolerância, de dentes à mostra um para o outro, seja entre indivíduos ou entre nações e povos. Gentileza faz falta!

Na minha terra natal, Bernardino de Campos, havia um 'profeta gentileza'. Nunca ninguém o levou a sério, porque, embora dissesse verdades, elas vinham de um cidadão maltrapilho, sem dinheiro no banco nem parentes importantes, como cantava o imortal Belchior. Então, caía no terreno do folclore, enquanto doutores honoris causa destilavam hipocrisia e estelionato intelectual para se dar bem na vida. Lembro-me que este pregador urbano, quando precisava advertir alguém que desdenhava dele, afirmava: "Será que chegarás?!".

Hoje, conhecendo intensamente a arrogância e prepotência nossa de cada dia, posso intuir o que ele queria transmitir com o "Será que chegarás?!".

A vida é incrivelmente complexa em sua concepção, mas notoriamente simples para ser vivida. "Gentileza" e outros filósofos não menos anônimos nos ensinam isso. O homem, com sua vocação para a autodestruição, precisa baixar a bola de sua vaidade, antes que não haja mais um retorno possível ao que lhe é mais natural.

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