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Segundando

Fraturas expostas

04/09/17 07:00
João Jabbour

Depois da tempestade, o cenário sempre é desolador. Não apenas nos filmes, pois se assim fosse seríamos mais felizes. Refiro-me à vida real. Ao Brasil. A cada um de nós.

Depois que o atual governo ganhou sobrevida e talvez preserve sua frágil interinidade até a próxima eleição, daqui a um ano, a poeira começa a assentar sob os escombros, pois o show da vida não pode parar. 'Muitos menos a economia', diriam os liberais.

E o que se vê, aqui e acolá? Remendos. O rescaldo acinzentado após a brasa parar de arder, apelos a razões que a própria razão desconhece, falhas que estavam escondidas nos últimos anos, fragilidades que se encontravam disfarçadas, leis não sendo cumpridas, magistrados decidindo a seu bel prazer, políticos armando ardilosamente sua sobrevivência, povo longe das ruas, crimes beirando às raias do absurdo, estado paralelo das quadrilhas ganhando terreno, governo vendendo a Telebras e a nossa soberania para arrumar alguns caraminguás, estuprador reincidindo, Lula cada vez mais pensando apenas no Lula, PSDB mais perdido do que Adão no Dia das Mães, PMDB cuidando de sua permanência eterna no 'puder', Neymar irritadinho porque não fez gol no jogo da Seleção, a Lava Jato sem saber a hora de parar com o messianismo que a distorce, todo mundo delatando todo mundo sem prova, Fábio Assunção metido em outra confusão, muita gente vendendo o único bem que dispõe para pouca gente que vai acumular mais um entre tantos que possui, o fosso social se alargamento ainda mais e a gente, aqui, procurando saber por que há tanta desordem, falta de ética e compromisso com a moralidade.

Que vergonha histórica estamos passando! 'O que é que eu vou dizer pros meus filhinhos?!', diria o locutor esportivo Silvio Luiz.

O que atenua um pouco o vexame é que Trump e Kim Jong-un seguem, pateticamente, brincando de "Batalha Naval". Mas que isso não nos console, porque há muitos povos dezenas de anos à nossa frente, tanto em economia e tecnologia quanto em decência civilizatória.

Não acredito mais em nossa geração e muito menos nas que vieram antes de nós. Fracassamos. Pode ser que em sua vida pessoal e familiar as coisas andem dentro da expectativa. Ótimo. Mérito seu. Mas na obrigação de construir um país melhor para os que vierem depois de nós, falhamos. Eles terão esta tarefa acumulada. Poderiam ser menos sobrecarregados. Mas não deu.

Não, não estou desolado nem ressentido com o que não vivi até hoje. Nada disso. Nem triste estou. Assalta-me apenas um sentimento de realismo nu e cru. Estou, no máximo, chateado, talvez muito chateado com o que poderíamos ser e não somos. Com o que poderíamos ter e não temos. Vergonha para com a Luíza, minha sobrinha que acaba de nascer.

Mas vamos lá, nova semana começando, deixe-me ver que máscara usarei hoje... Acho que a de sempre, assim como a mesma camisa, e mesma calça... Sou brasileiro, não existo nunca, opa, quis dizer 'não desisto nunca...' (Juro que foi um erro ao teclar, mas parece que deu sentido.... rsrsrs).

Vou ser sincero, meu problema é a mesmice. Meu mal é nunca querer que um dia seja igual ao outro, que as situações se perpetuem, que erros se repitam, que o mi-mi-mi prevaleça, que o discurso não se renove, que as teorias envelheçam e não abram delas, que as utopias não se renovem, que a garotada defenda coisa velha e ultrapassada, que o autoritarismo e a força sejam vistos como solução desesperada, que, no frigir dos ovos, às favas com os princípios que um dia foram desfraldados como bandeira.

'Utopia é o nome que as pessoas dão ao que elas simplesmente não conseguem realizar. Seja por incompetência, seja por egoísmo, por falta de persistência ou pela simples relutância em pôr as mãos na massa e tentar'. Augusto Branco.

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