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Bauru
Tribuna do Leitor

Quando a prática não combina com a teoria

Maria Raquel Carneiro

Por inúmeras vezes já vi profissionais da educação reclamando das teorias produzidas nas academias. Que seriam distantes da realidade. E também vi acadêmicos reclamando das práticas empregadas no dia a dia das escolas, pois seriam carregadas de senso comum. O sistema econômico vigente é repleto de contradições gerando lutas entre as partes. A escola deveria paramentar/subsidiar a classe oprimida para que ela pudesse ter meios de se defender ou ao menos participar de forma mais esclarecida das disputas que se estabelecem. Por outro lado é o Estado que mantem a escola. Essa mão pesada cai sobre gestores e professores que rapidamente transferem essa violência aos alunos das formas mais variadas.

Bauru tem se mostrado muito democrático no campo das teorias pedagógicas, mas nem sempre isso é traduzido na prática de professores, gestores e outros profissionais envolvidos no processo. Eu, enquanto professora que posição devo tomar? Me fecho em meu casulo, permaneço no meu quadrado ou me arrisco a dar minhas opiniões e sofrer o "linchamento" social por parte dos defensores da "moral e dos bons costumes"?

Penso que mais uma vez a escola está perdendo o bonde da história. Não por falta de teorias e tentativas de implementação dessas teorias, mas pelo conservadorismo e medo de perder as rédeas (como se houvesse rédeas) por parte dos profissionais envolvidos.

O número excessivo de alunos nos cubículos chamados de sala de aula, arquitetura parecida com hospitais e presídios, falta de conforto térmico, falta de materiais e equipamentos, crescimento da burocracia e papeis a serem preenchidos e arquivados, práticas cotidianas herdadas do período da ditadura militar (Culto a bandeira, fila como forma de organização) são ingredientes que colaboram com o fracasso da escola democrática. A escola do século XXI ainda é muito parecida com a do século XIX, enquanto que em outras áreas as mudanças foram gigantescas. Os alunos "formados" nesse ambiente nunca saberão o que é democracia e nem como se portar numa. Assim como os profissionais de hoje, formados com autoritarismo transmitem esse ranço em suas práticas, os jovens de hoje também serão autoritários no futuro. O círculo vicioso se perpetua.

A confusão de conceitos é recorrente. Autoridade é diferente de autoritarismo. Um é imposto, não há respeito. O outro é conquistado. Se quisermos ter autoridade com os alunos ou com qualquer outro grupo de pessoas precisamos convencer que somos um exemplo a ser seguido. Caso contrário seremos motivo de piadas e chacota para a juventude em formação.

A juventude é um período lindo da vida, no qual não temos medo de discordar nem de arriscar. Todos passam por essa fase e parecem se esquecer. Desconsiderar as características subversivas dessa faixa etária é atirar contra o próprio pé. Os adultos que lidam com esse grupo precisam ter ciência e consciência dessa realidade. Ações opressoras vão gerar respostas violentas. E mais uma vez a máxima "não fazer para o outro o que não quero para mim" é ignorada e substituída pela "faça o que eu mando e não o que eu faço".

Minha saúde me pede silêncio, mas minha consciência me pede para gritar.

Quanto à prática da democracia? Respeito ao próximo? Fim da criminalidade? País livre de corrupção? Mundo melhor? Esses projetos terão que esperar, pois mais uma geração de tiranos vem por aí! Afinal, o sonho de todo oprimido é se tornar opressor.

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