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Museu se 'reinventa' para atrair visitante

Em Jaú, foi construída simulação de um sítio arqueológico para que o visitante aprenda como é feita escavações

15/04/18 07:00
Aurélio Alonso
Museu Municipal de Jaú
Sítio simulado para escavação arqueológica foi feito em uma caixa de areia no Museu de Jaú

O grande desafio ainda é manter a memória e a história das cidades. Os museus municipais, além de terem uma importância para a educação, também podem ser incluídos em roteiros turísticos. Apesar das severas restrições dos orçamentos que as cidades enfrentam, algumas têm "reinventado" esses espaços para atrair visitantes. Nem todas as experiências dão certo, mas em Jaú a arqueologia é a alternativa para tornar mais interativo com a criação até de um sítio simulado para escavação.

O diretor do Museu Municipal "José Raphael Toscando", Fábio Grossi, tem formação na área de arqueologia, o que possibilitou criar nos fundos do prédio uma estrutura para que alunos do ensino fundamental e até de faculdade possam ter noção de arqueologia. Acaba sendo mais educativo trabalhar a história de forma dinâmica.

Mas antes desse projeto, o Museu de Jaú também já tinha desenvolvido outra atividade para lá de inusitada: passeio noturno no Cemitério Municipal "Ana Rosa de Paula". A atividade é gratuita e o ponto de partida é o Velório Municipal "Coriolando Rodrigues de Lima".

Malavolta Jr.
 Museu Histórico de Avaí funciona em imóvel alugado e tem muitas relíquias

Instituído em 2011 pelo memorialista Júlio César Polli, o passeio ficou conhecido em toda a região e é conduzido por Fábio Grossi. Fora essas atividades diferenciadas, o Museu tem um acervo de fotos e documentos significativos.

Na região, há museus em Lençóis Paulista, Avaí, Pederneiras, Lins, São Manuel, Botucatu, entre outros municípios. A dificuldade é a manutenção e treinamento das equipes. Até um município pequeno, com dificuldades de recursos, conseguiu criar um Museu Municipal com acervo significativo. Foi um legado deixado pelo professor Vivaldo Pitta, que estruturou e viabilizou um projeto que, a longo prazo, se expandiu e recebe muitas visitas de ex-moradores. Falta, no entanto, uma sede definitiva para o museu, que pode ser no futuro a atual estação ferroviária em ruínas, do qual a prefeitura vem reivindicando junto à União a sua doação para a municipalidade.

Malavolta Jr.
José Ricardo Navarro, diretor do Museu Municipal Histórico "Francisco Pitta", de Avaí

O Sistema Estadual de Museus (Sisem-SP), instância da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, tem o objetivo de promover a qualificação e o fortalecimento institucional em favor da preservação, pesquisa e difusão do acervo museológico do Estado. Em seu último mapeamento, realizado no ano de 2010, foram listadas 415 instituições museológicas públicas e privadas, distribuídas em 190 municípios do Estado. 

Em entrevista ao JC, o diretor do Sisem-SP, Davidson Kaseker, admite que devido a crise financeira dos municípios, em geral, os museus públicos passam por severas restrições orçamentárias. E para melhorar o funcionamento dessas instituições, a maior parte mantida com recursos públicos, a orientação é aderir ao Cadastro Estadual de Museus de São Paulo (CEM-SP), que se constitui em torno de parâmetros que representam um alicerce consolidado para o balizamento de orientações técnicas que em muito poderão contribuir para o desenvolvimento institucional dos museus.

Kaseker declara que, apesar das dificuldades, nas últimas décadas o setor museológico brasileiro tem se transformado significativamente.

Museu de Jaú 'interage'com arqueologia

Divulgação
No laboratório do museu tem explicação de como fazer a catalogação de peças históricas após serem desenterradas

O Museu Municipal "José Raphael Toscano" de Jaú criou um sítio arqueológico simulado para possibilitar aos visitantes conhecer a metodologia de uma escavação. Os alunos e até estudantes universitárias podem "treinar" numa caixa de areia que reproduz como é feita a remoção das peças históricas e sua catalogação.

A ideia se expandiu para o canal do Youtube Arqueologia Alternativa, mantido pela arqueóloga Cristiane Amarante, que visitou o município e gravou alguns vídeos sobre temas variados.

O diretor do museu é o professor de história e formado em arqueologia Fábio Grossi que explica que a ideia é deixar a participação dos alunos mais dinâmica. "O Museu é para a sociedade. É um conceito que tem que interagir toda hora e vemos o museu como um braço da educação e da produção de conhecimento", ressalta.

O fato de criar o sítio arqueológico é uma ferramenta didática, porque durante uma atividade com estudantes é possível trabalhar várias disciplinas que vão da história, geografia, educação artística e até matemática. 

Divulgação
Alunos em sítio  arqueológico simulado

Desde o ano passado, o museu recebe caravanas de alunos. O diretor cita que há duas possibilidades de interação. Um é a mais pontual, o de fazer a escavação simulada como se estivesse em um sítio arqueológico. Essa atividade pode durar uma manhã ou até o dia inteiro com grupos de até 10 pessoas. 

Há também o laboratório que seria a segunda etapa após a escavação. No museu há instalações de como analisar as peças. Tudo começa com um palestra introdutória de uma hora e depois o visitante vai para a área do sítio reconstituída com três camadas de ocupações humana: uma antiga, chamada de caçador coletor (primeiros habitantes da América), a intermediária (de ocupação indígena antes da chegada dos europeus à América) e ocupação histórica (já com a presença do europeu no continente).

Grossi explica  que ensina todo o rigor e metodologia da escavação para ter o cuidado para não danificar a peça e fazer o registro, o desenho, tirar a foto e peneirar a terra para não deixar passar nenhum vestígio importante.

A participação conta com estudantes do ensino fundamental a adulto de pós-graduação. Embora para a criança seja uma atividade lúdica, recentemente contou também com participação de estudantes de história da Universidade Sagrado Coração (USC) de Bauru. "A atividade é a mesma para qualquer faixa etária, mas o trabalho tem o diferencial. Com criança é para mostrar a importância da reconstituição para o registro da história, mas com aluno de pós-graduação é mais metódico", explicou.

O diretor conta que a atividade prática possibilita melhor o aprendizado e desperta mais atenção dos alunos ao aprender os fatos históricos.

Visita ao cemitério

A Secretaria de Cultura e Turismo dá o apoio ao grupo NecroPollis que realiza uma atividade bem inusitada: passeio noturno de arte cemiterial no Cemitério Municipal "Ana Rosa de Paula". O ponto de partida é o Velório Municipal "Coriolando Rodrigues de Lima" e a última visita ocorreu na sexta-feira 13.

Instituído em 2011 pelo memorialista Júlio César Polli, o passeio ficou conhecido em toda a região, e é conduzido por Fábio Grossi, diretor do Museu Municipal "José Raphael Toscano", gerido pela Secretaria de Cultura e Turismo.

Durante o passeio noturno pelo Cemitério Municipal, os participantes podem aprender um pouco mais sobre a história jauense por meio dos jazidos de imigrantes e das famílias que contribuíram para o crescimento do município. Em alguns momentos, há intervenções cênicas.  

Legado de historiador viabiliza museu em Avaí 

O Museu Municipal "Francisco Pitta" de Avaí está no catálogo estadual do Sistema de Museus Estadual (Sisem). Já completou 15 anos de fundação, mas a sua criação é graças ao empenho do historiador e ex-ferroviário Vivaldo Pitta.

O surgimento do município ocorreu com a chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB). Há uma sala exclusiva para a memória ferroviária, com equipamentos da época e fotos. Foi criado pela lei 1.516, de 20 de dezembro de 2002, mas a inauguração ocorreu em 15 de março de 2003, porém teve seu nome alterado em abril de 2007 para Francisco Pitta, pai de Vivaldo. A instalação fica em uma casa alugada. A prefeitura tem planos de conseguir da União o espaço da antiga estação ferroviária a fim de reformá-la, mas é projeto de longo prazo.

O museu funciona inclusive no sábado, domingo e feriados. É o período em que mais recebe visitantes, principalmente de antigos moradores de Avaí que residem atualmente fora. De segunda a sexta está aberto da 8h às 17h e sábado, domingo e feriado pode ser visitado das 8h às 12h.

O diretor do Museu, José Ricardo Navarro, conhece de perto a luta de Vivaldo Pitta para criar o principal espaço de memória da cidade.

Existem espaços como sala de exposição, galeria dos prefeitos, sala da memória ferroviária e acervo grande de fotos e documentos. O fluxo anual é de cerca de 4 mil visitantes/ano. No livro de registro de visitas aberto em 2003 havia 18.425 nomes registrados até quarta-feira (11). "Hoje a população recebe muito bem o museu, mas quando o seu Vivaldo teve a ideia de criar o museu em 2003 havia desconfiança. As pessoas começaram a entender que o museu é uma coisa séria. Eu mesmo quando estudava nem sabia quem era o fundador da cidade", conta Navarro, que aprendeu muito com Vivaldo Pitta.

O Museu foi inaugurado em um local menor e passou para uma segunda casa em espaço maior, mas futuramente vai precisar instalação definitiva. No debate de criar um Plano Diretor no município, o item preservação da memória consta da pauta.

Entre as relíquias estão o projetor de filmes do antigo Cine Avaí, que fechou em 1994 após o declínio da sala devido a concorrência da televisão. O equipamento ocupa uma sala, mas há outros equipamentos mais antigos como máquina de escrever, telex, telefone, entre outro objetos. O museu faz parte do projeto Circuito Turístico Caminhos Centro Oeste Paulista.

Navarro admite que o desafio é trazer mais estudantes para visitar as instalações. "Os moradores mais antigos, principalmente os que moram fora, são os que mais vêm aqui. A frequência de público, no entanto, é mais nos feriados prolongados, principalmente em Finados. A gente deixa aberto para facilitar a vinda até aqui", contou.

Museus passam por restrições financeiras

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Davidson Panis Kaseker é diretor do Sistema Estadual de Museus (Sisem-SP)

O diretor do Sistema Estadual de Museus de São Paulo (Sisem), Davidson Panis Kaseker, explica que devido a crise financeira dos municípios, em geral, os museus públicos passam por severas restrições orçamentárias. Outra dificuldade recorrente é a estruturação de equipe técnica com formação adequada.

O Sistema Estadual de Museus (Sisem-SP), instância da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, congrega e articula os museus paulistas, com o objetivo de promover a qualificação e o fortalecimento institucional em favor da preservação, pesquisa e difusão do acervo museológico do Estado. Em seu último mapeamento, realizado no ano de 2010, foram listadas 415 instituições museológicas públicas e privadas, distribuídas em 190 municípios do Estado. A seguir alguns trechos da entrevista

JC - Como está a organização dos museus no interior, principalmente na região de Bauru?

Davidson Kaseker - O Sisem-SP se estrutura em torno de premissas de parceria e responsabilidades compartilhadas, em que as ações previstas para cada região administrativa são concebidas levando-se em conta o contexto, as demandas e as potencialidades locais. Ao todo, o sistema atua em cinco linhas de ação principais: articulação, apoio técnico, comunicação, formação e fomento. Para compartilhar e debater os objetivos estratégicos setoriais e mobilizar as diferentes regiões do Estado, desde 2012 o Sisem-SP conta com um Grupo de Trabalho composto por 32 representantes regionais (dois representantes para cada uma das 16 Regiões Administrativas, incluindo duas Regiões Metropolitanas). Os representantes são eleitos, a cada dois anos, no Encontro Paulista de Museus e atuam, em conjunto na definição das prioridades e no planejamento das ações do Sisem-SP para a área museológica nas suas respectivas regiões. Na região de Bauru, são representantes do Sisem a museóloga Luiza Barbosa (Bauru) e Anna Fonseca (Pederneiras).

JC - O que o Sisem tem notado nessas visitas aos museus municipais e quais as dificuldades que têm notado que as cidades enfrentam?

Davidson Kaseker - Em geral, os museus municipais passam por severas restrições orçamentárias, especialmente nestes momentos de crise. Outra dificuldade recorrente é a estruturação de equipe técnica com formação adequada. Ainda que o Sisem ofereça cursos de capacitação, estágios e assessoramento técnico, muitas vezes a rotatividade das equipes dificulta uma ação mais qualificada dos museus.

JC - Quais as recomendações do Sisem são dadas a essas cidades para melhorar o funcionamento dos museus?

Davidson Kaseker - A primeira orientação é aderir ao Cadastro Estadual de Museus de São Paulo (CEM-SP), que se constitui em torno de parâmetros que representam um alicerce consolidado para o balizamento de orientações técnicas que em muito poderão contribuir para o desenvolvimento institucional dos museus.

JC - O que é necessário para que os museus não se transformem somente em depósito de acervo antigo? Quais as sugestões para tornar esses locais mais dinâmicos?

Davidson Kaseker - Nas últimas décadas o setor museológico brasileiro tem se transformado significativamente. A transformação é resultado das novas demandas e do papel social dos museus na contemporaneidade. No entanto, o reconhecimento dos museus como equipamento cultural de mobilização social nos coloca diante de novos desafios. Muitas vezes, se confunde a utilização de recursos tecnológicos como garantia de interação do público com as exposições. É um equívoco, pois a interatividade não ocorre apenas pelo simples ato de apertar botões ou tocar em telas. É fundamental que os museus, por meio de suas exposições e ações educativas, estabeleçam um diálogo efetivo entre as coleções de seus acervos e os temas que desafiam a sociedade e, mais especificamente, seu público-alvo.

Lins prepara museu histórico para comemorar centenário do município

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Exposições são realizadas a cada dois meses

O Museu Histórico e Arqueológico de Lins está em atividade há seis anos, mas as peças arqueológicas estão sendo devolvidas à Universidade de São Paulo. Houve uma mudança no projeto e vai ficar a instalação mais no resgate da história do município.

O espaço histórico recuperou a antiga estação ferroviária do município. A inauguração ocorreu em 4 de agosto de 2012. Funciona de terça a domingo das 9h às 17h.  De acordo com a diretora Letícia Figueira, a cada dois meses são realizadas exposições. A próxima é em 21 de abril para marcar a data de aniversário do município com fotos, livros e objetos históricos.

"Temos um projeto 'A Caminho do Centenário' que queremos deixar o museu mais completo no aniversário de 100 anos de fundação de Lins", citou. A média de visita é de 250 pessoas por mês, de acordo com Letícia. O Museu Histórico de Lins foi criado em 1958, no governo Moysés Tobias, através de lei municipal. No entanto, somente 58 anos depois, é que ele se tornou uma realidade para o município.

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