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FerMentando

11/12/17 07:00
Cinthya Nunes

Neta de um padeiro, sempre fui uma apaixonada por pães. Desde que tenho lembranças de existir nesse mundo, ocorre-me a imagem de pães deliciosos e perfumados. Pães de todos os tamanhos, de todas as formas e sabores foram personagens importantes dos meus dias e de fato ainda são. No que dependesse exclusivamente de mim, comeria muito mais dessas iguarias, mas pelo bem da circunferência da minha cintura e para não ter que trocar todas as minhas roupas, restrinjo esse prazer ao meu café da manhã, minha refeição preferida, a propósito.

Diante dessa minha paixão, sempre acalentei o sonho de fazer um curso de panificação artesanal, eis que a morte levou o meu avô enquanto ele iniciava minha instrução. Infelizmente ainda não consegui conciliar meus horários com alguns cursos que me despertaram o interesse. Isso, contudo, não me impediu de fazer tentativas por conta própria.

Já testei diversas receitas de pães durante minha vida e a cada um que fiz, apenas tive a comprovação de que realmente é algo a que quero dedicar mais tempo e estudo. Em uma operação que parece alquimia, farinha, fermento e ovos se transformam em pedaços dourados que se assemelham a um dia de sol. Especial demais sovar a massa, dar forma e para ela transferir os melhores sentimentos de gratidão pelo pão nosso de cada dia.

Há alguns anos adquiri uma máquina de fazer pães. Confesso que é muito prática e aqui em casa demos a ela muito uso. Tudo muito simples: basta colocar lá os ingredientes, programar e voilá: temos um pão quentinho! Se bem feito, ficam bem gostosos, mas tem um formato que não é propriamente elegante, já que mais parece um tijolo. Seja como for, quebra bem o galho e eu tento me divertir inovando nos ingredientes, sempre inserindo algo como nozes ou mesmo uma farinha especial.

Fazia já algum tempo que eu não fazia um pão à moda antiga, até que, fuçando pela internet eu vi uma receita de como fazer meu próprio fermento artesanal, o levain! De pronto fiquei encantada e resolvi arriscar. Partindo da fermentação de uvas passas, produzi um liquido com aroma azedo que, incorporado à farinha de trigo, foi crescendo, borbulhante. Comecei, inevitavelmente, a sonhar com os lindos pães que eu faria e até mesmo a quem eu presentearia com os excedentes.

Em meio as minhas elocubrações, comentando com minha mãe sobre minhas novas incursões, descobri que a mãe dela, minha avó, também cultivava seu próprio fermento e que o multiplicava sempre a fim de perpetua-lo. Não pude deixar de lamentar o quanto perdemos quando os mais velhos se vão desse mundo, sobretudo quando ainda somos incapazes de entender o universo de conhecimentos que levam com eles.

De toda forma, voltando ao meu fermento, tudo ia bem quando eu passei para uma das últimas fases da fermentação antes de iniciar a feitura do pão. Após uma noite em que minha "criatura" deveria ter dobrado de tamanho, acordei ansiosa para contemplar o milagre da multiplicação e, para minha frustração, constatei que algo aparentemente dera errado, já que não havia crescido.

Diante da hipótese de ter que recomeçar, de fazer tudo novamente, surgiu em mim certa tristeza, mas antes de descartar tudo resolvi entrar nas redes sociais e pedir ajuda em um grupo de aficionados por pães e fermentos naturais. Tive algum alento ao ser informada de que nem tudo estaria perdido, já que eu deveria tentar alimentar mais uma vez os meus fermentos e esperar para ver se reagiam.

Nesse momento acabei de fazer isso e estou na expectativa de que meus esforços não tenham sido todos em vão. Ainda estou com esperança de assar meus pãezinhos artesanais, nascidos dos meus sonhos e das minhas mais doces lembranças. Se não der certo, eu arrumo coragem e começo tudo de novo. Penso, com nostalgia, que seria muito bom ter um canal direto com o Céu, pois com certeza a Dona Antônia e Seu Zé poderiam me ajudar.

Na impossibilidade desse auxílio, resta-me o desejo de que a genética possa fazer o papel dela e me levar pelo bom caminho. Um dia desses, quem sabe, consigo fazer o curso que há tantos anos venho planejando. Enquanto isso, vou fazendo, com prazer, aquilo que sou de fato mestra, graduada com louvor: sigo comendo-os, deliciosamente.

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