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A guerra não é dos meninos!

11/02/18 07:00
João Jabbour

Estes 4 dias de Carnaval criam uma trégua física e mental na dureza cotidiana local e nacional, mas não a resolvem. O enredo maior desta folia, fosse ela de natureza propositiva, poderia ser 'a reinvenção do País', de tanto problema que temos em tanto lugar ao mesmo tempo. Mas não é esse um tema popular. Abram alas ao rei, rainha e a todos os pierrôs e arlequins anônimos e famosos do Carnaval! Reinem em paz até terça-feira. Depois, voltamos à luta.

A tristeza maior e mais recente deste carnaval é saber que João Pedro Soares da Costa, 4 anos, Emily Sofia, 3 anos, e Jeremias Moraes, 13 anos, não vão a matinê nenhuma hoje. Emily e Jeremias nunca mais vão se divertir com marchinhas e sambas enredo, que talvez nem tenham conhecido. Foram mortos a tiros no Rio de Janeiro, recentemente, por causa da guerra entre traficantes e traficantes e policiais. João Pedro luta para sobreviver em um hospital carioca.

O carro em que Emily estava foi atingido por 12 tiros de fuzil e pistola, quando, ao lado dos pais, saía de uma lanchonete. Os dois ficaram feridos, mas a pequena não resistiu. Nos últimos 10 anos, 44 crianças foram mortas por balas sem rumo na Cidade Maravilhosa (?), em uma guerra que não é delas. É dos adultos!

Há um filme chamado "A Guerra dos meninos", documentário gerado a partir do livro do jornalista Gilberto Dimenstein, de mesmo título, escrito no começo dos anos 90. O filme focaliza o cotidiano dos meninos de rua e investiga a ação dos grupos de extermínio. Outra realidade cruel que contrastou a natureza exuberante do Rio de Janeiro com a face mais horrenda do ser humano.

Continua existindo naquela cidade cartão postal do Brasil e em tantas outras, de formas distintas, uma guerra silenciosa e não declarada oficialmente. Um campo minado onde se travam batalhas de forças desiguais, em que as vítimas são as crianças, mesmo as que não são alvejadas por balas errantes, mas perdem os pais brutalmente em todo tipo de crime.

Os diretores de "A Guerra dos meninos" propõem que o documentário, de apenas 52 minutos, seja mostrado nas salas de aula para provocar reflexões sobre o mundo cão que existe ao lado, em qualquer cidade. Se eu fosse professor, exibiria mais que depressa. Certamente, provocaria espanto e um choque de realidade nos alunos. Levaria à escola e aos futuros adultos a problematização da vida em sociedade, as desigualdades e a violência que afetam grande parte das famílias.

Poderia, ao longo do debate, para ampliar horizontes, se propor aos jovens a clássica questão: os homens são ruins em essência ou o meio é que os torna agressivos? Detalhe: evitaria, de todas as maneiras, que a discussão caísse no reducionismo moralista fantasioso da luta do bem contra o mal, bandido versus mocinho.

Quando começou, nos anos 1960, o comércio de drogas nas favelas do Rio era pequeno e quase singelo, feito por homens mais velhos, em geral os mais valentes, e até mesmo por senhoras de idade. Há cerca de 50 anos, início da década de 70, segundo os historiadores, não havia fuzis nem cocaína no morro. Mas para se entender a 'guerra' pela paz no Rio de Janeiro é preciso navegar rumo há décadas atrás, século retrasado.

Inúmeras obras, de ficção ou não, fazem recortes da violência no Rio. Os morros, diga-se, não vivem somente em conflito. Conheço uma família bauruense que foi para lá há muito tempo e leva a vida até hoje sem grandes sobressaltos. No livro "Memórias de um sargento de milícias", publicado em 1854, o escritor Manuel Antônio de Almeida apresenta o primeiro brasileiro a assumir a Guarda Real, 13 anos após sua fundação, justamente para atuar na já complexa teia social do Rio, então com 60 mil habitantes, a metade formada por escravos. Mais recentemente, temos os filmes "Cidade de Deus", "Tropa de Elite", entre outros. Dá para discutir à exaustão.

Enfim, seria apenas coincidência que a orla e os morros cariocas sejam tão contrastantes física, social e economicamente?

Alguma semelhança com Casa Grande e Senzala?

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