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Estado permanente de Carnaval

18/02/18 07:00
João Jabbour

Além de toda a reconhecida beleza plástica e artística de nosso carnaval, me impressionou neste ano o entusiasmo e a força de mobilização que a festa proporcionou. 

Na segunda-feira, após o retorno do Sambódromo, vi um programa na TV que fazia uma resenha do carnaval país afora até aquele dia. A energia emanada dos blocos nas ruas, das escolas e plateia nos sambódromos, nos clubes e em outros lugares deve ser equivalente à de muitas bombas de hidrogênio.

Aí vem aquele devaneio de uma noite de verão, clichê, mas sempre atual: ahhh, se essa força e convicção fossem canalizadas para mudanças que o País precisa...

Recebi um vídeo que circulou pela Internet em que um cidadão, muito engraçado, de forma descontraída, pede a decretação de um estado permanente de carnaval até junho, pelo menos. "Queria que esticassem o carnaval, porque no carnaval acabou a crise... Desde sexta-feira não tem mais crise no Brasil...", diz ele, ao telefone, como se estivesse falando em um desses 0800 da vida, pedindo justamente para que se prorrogasse a festa.

"Não é para ficar em casa, não, nem na folia...", argumenta o rapaz, para esclarecer melhor à atendente do 0800: "Meu vizinho aqui do lado vive reclamando da vida, de tudo, que não tem dinheiro, não consegue trocar o pneu do carro, não consegue pagar o IPVA... Adivinhe onde ele tá? Tá na Bahia pulando carnaval... Já postou foto do camarote e tudo, moça..."

Não é uma novidade que grande parte, talvez a maioria, dos brasileiros se entregue de corpo e alma aos prazeres do reinado de Momo mas, não sei o porquê ou se é só impressão, desta vez a volúpia pelos embalos da festa parecia ainda maior do que em anos anteriores. Acho que um pouco, ou muito, disso talvez seja em razão da dureza que tem sido o cotidiano do brasileiro médio nos últimos tempos. Uma espécie de desafogo coletivo, uma catarse pela alegria tão rara... E não sem motivo.

Uma das coisas que desenvolvemos na profissão de jornalista é o feeling apurado para determinadas coisas. Fiquei atento a cada movimento nos lugares por onde andei. No Sambódromo de Bauru, acima de tudo. Há, de fato, neste momento, por parte de uma camada expressiva da sociedade, uma busca incontida por felicidade, ainda que fugaz, na base do 'qualquer paixão me diverte', mesmo que seja na aparência, para confirmar a existência alegre.

Temos buscado a todo custo nos cobrir com um verniz de normalidade, algo que não se sustenta, não resiste a uma provação, mas mitiga justamente o contrário da tão desejada felicidade, ou seja, a consternação, a depressão, a má-sorte e a tristeza que nos assombram.

A psicologia trata com muita racionalidade essa expectativa tão subjetiva que temos a respeito da felicidade. Há muitas abordagens. Uma delas diz que, a não ser quem está em estado absoluto de miséria e tem de se voltar integralmente para conseguir manter o corpo físico vivo, nas demais situações de crise deve-se analisar com calma e equilíbrio os fatos, que podem significar o fim de um ciclo para o começo de outro - e aí vira oportunidade - ou então a necessidade de administrar suas variáveis no sentido de superar adversidades, neste caso configurando-se em um saudável exercício de aprendizado e desenvolvimento pessoal.

Particularmente, gosto de recorrer à filosofia. Sou adepto, já disse isso aqui, de uma linha de pensamento do filósofo francês contemporâneo Luc Ferry, que diz buscar a serenidade na vida, nunca a felicidade. "A felicidade não existe, só a serenidade", diz ele.

Concordo plenamente. E não significa que não possamos mais sorrir nem tirarmos prazer de nada. Ao contrário, só em estado de serenidade podemos experimentar, irrestritamente, o encanto de viver, o que talvez, em grande medida, signifique, antes de tudo, aplacar nossos medos. Medo da crise econômica, por exemplo.

Nada contra o carnaval, é claro. Também gosto. Mas a tentativa hoje foi só a de refletir sobre o que queremos enquanto sociedade: viver sempre tutelados por reis (neste caso o Rei Momo), falsos messias, profetas e salvadores da pátria ou assumir as rédeas de nossos destinos?

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