Previsão do Tempo
Bauru
Segundando

'Poeta' Umberto Eco

25/02/18 07:00
Sérgio Mauro - Professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara

Há dois anos, em 19 de fevereiro de 2016, a Itália perdeu um dos seus maiores pensadores. Desde então, muito se falou e se escreveu a seu respeito, quase sempre lembrando os maiores sucessos, sobretudo romances que o consagraram, como, por exemplo, O nome da Rosa, um dos poucos best-sellers italianos de repercussão mundial, e A misteriosa chama da Rainha Loana.

No entanto, poucos se referiram à outra faceta do mestre piemontês: a poesia filosófica e a poesia satírico-paródica, presente em volumes como Il scondo Diario Minimo (O segundo Diário Mínimo) e o minúsculo Sator arepo eccetera, publicado em 2006 por uma pequena editora.

No Segundo Diário Mínimo, o jovem Eco (1958) inventa dois pequenos "compêndios" intitulados "Filosofi in libertà" e "Scrittori in libertà", nos quais recorre aos versos para divertir-se eruditamente com a história da filosofia, dos pré-socráticos a Heidegger, e com o pensamento de alguns grandes escritores como Proust, Kafka e Joyce, estabelecendo um curioso diálogo entre os filósofos elencados em ordem cronológica. Há ainda improváveis "conversas" entre determinados escritores "filosóficos", como ocorre no estranhíssimo "diálogo entre Dante e Saussure", no qual o "sommo poeta" lamenta o "aspérrimo" caminho percorrido pelo linguista para defender a "sincronia estrutural".

Trata-se de exercícios de poesia despretensiosos, mas densos de erudição e dotados de fino humor, em que o grande pensador, ainda muito jovem e no início da sua brilhante carreira, dá asas à imaginação e concebe curiosas "conversas" entre os maiores pensadores da humanidade. A título de exemplo, podemos observar como em "Filosofi in libertà" Marx reage inconformado a uma pergunta feita sobre o pensamento de Kant: "Se tu gli chiedi: 'Ma allora, dica,/se Kant disserta sulla ragione/questo per caso dipende mica/s'egli abba fatto già colazione?'/Marx ti responde: 'Dico, le pare?/Chi le autoriza simil chiose?/Questo è marxismo, sì, ma volgare!" (Secondo Diario Minimo, p. 230). Percebe-se claramente nestes versos que o autor tencionou obter um efeito cômico a partir de dados "sérios". No contexto do final dos anos 50, em plena Guerra Fria, deve ter parecido provocador imaginar Marx reagindo inconformado a uma observação sobre se a noção de razão em Kant depende de ele ter ou não tomado o café da manhã!

Mas o "Secondo Diario Mínimo" tem outros exemplos fantásticos da verve poética de Umberto Eco que se diverte alterando poemas de Montale, como, por exemplo, quando reescreve a poesia montaliana "Addio fischi nel buio" ("Adeus, assobios na escuridão"). Ao refazer os versos de Montale, ele prefere imaginá-los sem as vogais, em etapas nas quais paulatinamente as vogais são retiradas até descaracterizar completamente o original. Mais uma vez se trata de uma brincadeira, talvez destinada a preencher noites de insônia.

Em Sator arepo eccetera, além da invenção de incríveis anagramas e acrósticos (naturalmente, sempre recheados de referências eruditas), impressionam as divertidas paródias de alguns versos dos cantos I, V e XXXIIII do Inferno, de Dante Alighieri. O tom altamente trágico destes cantos, sobretudo o V, famoso pela história do amor entre Paolo e Francesca, e o XXXIII, que narra o triste fim do conde Ugolino, trancafiado em uma torre para morrer de fome com os seus filhos, acaba sendo "subvertido" e transformado em uma espécie de festim com alusões claramente sexuais. O mais incrível é que esta aparente atualização "subvertida" dos versos de um dos maiores poetas da humanidade mantém a "música" de Dante, pois tanto a rima como a métrica são respeitadas. O hendecassílabo do poeta florentino surge adaptado aos nossos tempos vulgares, perdendo, assim, dramaticidade e provocando antes risadas que lágrimas. Nesta paródia "buffa", o personagem Dante, viajante vivo que percorre o reino dos mortos, não desmaia de comoção após o triste relato de Francesca, mas põe-se a rir e a pular, cheio de vida: "E poi che poscia l'altro corpo tacque,/l'uno ridea; sì ch'io sghignazzavo/pieno di vita come uom che nacque./E tutto arzillo, a balzi, saltellavo" (Sator arepo eccetera, p. 15. Tradução literal: "E depois que o outro corpo logo se calou/um deles ria, de modo que eu fazia gracejos, /cheio de vida como homem que nasce/E todo lépido, dava pulinhos").

Umberto Eco foi também poeta, portanto, mas do seu jeito característico, misturando erudição com finíssimo humor, além de certas flechadas disparadas contra as convenções e contra as ideologias e verdades pretensiosamente indissolúveis. O seu legado, já bastante rico e destinado à eternidade, como todas as obras dos verdadeiros artistas, permite também que seja incluído no rol extenso dos poetas universais, ao menos no que concerne aos poetas satíricos ou com características paródicas.

 

Ler matéria completa
Mais notícias em Segundando
As mais compartilhadas no Face
Recomendado
voltar ao topo