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Choque de gerações

04/03/18 07:00
João Jabbour

Entre tantas, recebi esta mensagem no WhatsApp. "Um jovem perguntou: Vovô, como você viveu antes sem tecnologia, sem internet, sem computadores, sem tv's de plasmas ou led, sem ar-condicionado, sem celulares, tablets, notebook e laptop? O vovô respondeu: Como a sua geração vive hoje sem compaixão, sem honra, sem respeito, sem vergonha, sem esforço, sem responsabilidades, sem modéstia?"

Muito bonito a princípio, mas um tanto generalista e estereotipado. Afinal, por que a maioria das pessoas de uma geração se acharia especial ou melhor do que as de outra? Como atribuir um único conjunto de características psicológicas a milhões de seres humanos ao mesmo tempo? Acho que essa pergunta já responde a boa parte do problema.

Parece coerente dizer que mundo se transforma e as mudanças transformam as pessoas. O jovem atual, multifuncional e antenado, não nasceu diferente, em essência, do jovem de 1920. Tem as mesmas inseguranças e ansiedades. Mas o ambiente e os princípios com os quais se depara são diferentes. Os avanços da ciência e seus impactos nos valores alteram a cultura e o modo de vida.

Aliás, fazendo pequena pausa, mas ao mesmo tempo refletindo sobre o tema, essa história de choque de gerações lembra a sobrinha de uma amiga muito querida, que conheceu uma antiga máquina de escrever Olivetti, que lhe foi apresentada pelo avô. O senhor a colocou para datilografar e a garotinha ficou encantada. Mesmo assim, o ancião avisou, temendo uma galhofa: - É muito antiga... No que a netinha, surpreendentemente, retrucou: - Eu acho é muito moderna, vovô, porque ao mesmo tempo em que a gente escreve já está imprimindo...

Retomando o fio da meada, é complicado e reducionista simplesmente comparar gerações do ponto de vista qualitativo. Mesmo porque uma geração não surge desconectada da anterior. Os adultos de determinada época preparam (ou despreparam) as condições de vida da geração seguinte. Portanto, todos, temos responsabilidade pelo que virá posteriormente.

Se a qualidade do debate, das posturas e das decisões empobreceu nos dias presentes, temos de verificar em nós mesmos (e, talvez, antes de nós, na história) o que ocorreu para ter havido um desvirtuamento daquilo que o senso comum considera razoável, principalmente quando se fala em ética da vida.

Março de 2018. Há duas gerações em busca de entendimento na face da terra. A que nasceu na era industrial e a que surgiu e cresce na era digital. Há uma interessantíssima intersecção entre ambas e talvez isso explique um pouco tantos conflitos e desencontros que pareciam não existir na época em que a geração anterior, a nossa, reinava absoluta.

Será que teremos de dar razão ao escritor português Miguel Sousa Tavares?: "Todas as éticas são evolutivas: o que hoje é normal, amanhã será horrendo e o que hoje é crime, amanhã será banal."

Mudando um pouco de assunto, mas nem tanto, garimpando no Facebook alguma possível preciosidade informativa/opinativa, encontro um post inteligente, da querida mestra Sonia Mozer, que reproduzo na íntegra.

"Vocês conhecem Anitta? Acho que a maioria responderá - Siiiim! Vocês conhecem Nádia Ayad? E Helley Abreu Silva Araújo? Acho que a maioria responderá - Não! Anitta foi eleita por uma revista como a Mulher do Ano. Não tenho referências culturais para julgar o trabalho de Anitta e, portanto, não posso julgar a justiça do prêmio. O que me espanta e entristece, entretanto, é o silêncio, a ausência de prêmios e honrarias para Nádia e Helley. Nádia Ayad, de 23 anos, brasileira, formada em engenharia pela IME, do Rio de Janeiro, criou um dispositivo de filtração e dessalinização para casas que usem grafeno, para reciclar água, reduzindo custos e gasto de energia. Helley, de 43 anos, era a professora da creche de Janaúba, Minas Gerais, que morreu defendendo as crianças quando um louco assassino invadiu e incendiou a creche, em outubro do ano passado. Será que eu posso eleger essas duas grandes mulheres como Mulheres do Ano?".

Concordo plenamente, Sonia.

Minha resposta é sim, bem alto, para Nádia e Helley.

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