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Diz que de Bauru...

11/03/18 07:00
Joo Jabbour

A onda da última semana no Facebook foi postar uma frase com a lembrança de algo do passado relacionado à sua cidade natal ou sobre onde você vive desde muito cedo. Um exemplo, postado pelo professor Reginaldo Tech: 'Diz que é de Bauru, mas nunca comeu cachorro-quente nas Lojas Americanas...' Há muitas e são tantas que já teve, inevitavelmente, quem dissesse, ao final da semana, que não aguenta mais ler isso no Face. (Rsrsrs). Normal na rede social - os 'pro' e os 'contra'.

Lendo posts de amigos do Face de várias cidades, algo em particular nesta brincadeira me chamou a atenção: os personagens que assustavam, de alguma maneira, as pessoas, mesmo sem serem perigosos, de fato. Em Bernardino de Campos, na minha época de adolescente, as figuras que corriam atrás de todos nas ruas eram o Zé do Pito, o Arfo e o Nana. Em Bauru, li sobre o Ponciano e o Biruta, lembrados, respectivamente, pelo economista Reinaldo Cafeo e pelo advogado Antonio Piccino Filho. Não faço ideia quem sejam estes personagens (cheguei aqui em 1981), mas incrível como todos eles são marcantes em qualquer localidade.

Quem são estes atores nada anônimos do cotidiano das cidades, que guardamos na memória, mas que pouco se sabe sobre eles ou mesmo talvez nunca tenham sido alvo de estudo por alguma monografia, dissertação ou tese acadêmica?

O curioso dessa história é que, com o passar dos anos, esses 'figuraças' sumiram das ruas. Hoje, quem corre atrás da gente na rua é bandido, trombadinha, estelionatário, assaltante e outros vagabundos. Ficou muito ruim.

Tentando pensar um pouco com a razão, será que o sumiço destes personagens não estaria relacionado ao aumento da proteção a eles e à diminuição do preconceito? Grande parte dos que chamo aqui de 'figuraças' era portadora de alguma deficiência. E é bom que se diga: não havia maldade, ao menos intencional, quando mexíamos com eles e os mesmos corriam atrás de nós, pois havia um carinho pelos mesmos. Não deixávamos que os maltratassem. E eles pareciam se divertir com a sina de 'assustadores'.

Mas algo (ou muita coisa) mudou de lá para cá. Talvez tenha sido o surgimento do polêmico politicamente correto. Rotulações e distorções posteriores à parte, trata-se de um termo que, na origem, significava as minorias se defendendo, legitimamente, da discriminação que sempre sofreram. Atualmente, o preconceito pode até ser enquadrado como crime. E isso é muito bom.

Repito, nunca percebi, vivendo aquela época passada, manifesta maldade no relacionamento entre as pessoas ditas normais e os renegados. Porém, olhando pelo prisma da evolução social e com um pouquinho de criticidade, acho que o processo civilizatório explica por que não se tem mais estes entes populares perambulando pelas ruas.

E se, de fato, estes cidadãos que têm os mesmos direitos que os demais estiverem vivendo com mais dignidade e conforto, é uma prova de que há melhorias nas cidades e na ética do relacionamento humano.

Quem não se alembra que, quando crianças, fomos atemorizados pela ideia do 'homem do saco', que pegava as criancinhas e levava embora da família?! Era a forma como nossos pais nos convenciam a não sumir por aí nas brincadeiras de rua e a não confiar em estranhos. Com o passar dos anos, a psicologia convenceu-nos de que não podemos chantagear nossos filhos com o medo e ameaças. Temos de, racionalmente, mostrar a realidade a eles, sem mentiras.

Muitos acham que a vida ficou mais chata sem certos hábitos sociais, alguns inocentes, como o medo do palhaço que certas crianças tinham. Mas também evoluiu a partir do maior acesso às informações, que permitiu o fim de temores injustificados, de fobias sociais, inseguranças etc. A contemporaneidade nos trouxe problemas, sim, mas de outra natureza.

E fala que nasceu em Bauru e nunca foi ao Bancários e ao Flashdance, não é mesmo, Paulo Sérgio Pavanelli?!

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