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Copa e cozinha

01/07/18 07:00
João Jabbour

Definitivamente, a Copa não é a cozinha (de nosso cotidiano). Ela altera a rotina, goste-se ou não dela. Na Copa, relaxamos, mas também ficamos tensos. Relaxa-se em relação à dureza da luta pela sobrevivência digna e nos tensiona perante a frugalidade do futebol. Ou seja, os polos se invertem durante um mês e a maioria de nós, mortais comuns, sai um pouco da mesmice diária.

A Copa do Mundo une quem gosta de futebol a quem não gosta de futebol. Une bolsonarianos a lulistas passando por alckmistas. Põe lado a lado, em paz e harmonia, trotskistas e neoliberais, corintianos e palmeirenses, católicos e evangélicos, árabes e judeus.

Não viram como Trump e Kim Jong-un fizeram as pazes?! Era véspera da Copa do Mundo.

(Quase) Todos gostam de Copa. A sala de casa, o bar, o restaurante e o clube ficam cheios. Algo impossível nos outros quase quatro anos até a próxima Copa. No dia a dia, a disputa entre amantes e avessos ao futebol é ferrenha, palmo a palmo, como num bom jogo da própria Copa de Mundo.

Quando não há Copa, a TV da sala é disputada a tapas: novela, série ou jogo do time de coração? Ainda bem que inventaram de pôr TV nos quartos.

Outra coisa curiosa é que a Copa do Mundo faz todo mundo entender de futebol. As opiniões e comentários são os mais diversos (e engraçados) possíveis. Por que o cartão do juiz tem duas cores? O que é escanteio? E tiro de canto? Porque eles são tão ríspidos uns com os outros?

No outro time, temos a mesmice generalista dos "entendidos": "É uma equipe dinâmica, com volume de jogo", "O time estabeleceu um padrão tático", "Se ele estiver com a cabeça no lugar, pode ajudar muito", "O gol saiu em boa hora". E assim vai...

Então, tudo é festa. E dilema também. Teve uma repartição pública em Bauru, dia desses, que viveu uma de suas maiores dúvidas recentes, em razão de o jogo do Brasil amanhã começar às 11h. "Trabalhamos de manhã e voltamos à tarde?" "Melhor não trabalharmos de manhã e começamos após o jogo..." "Mas o jogo pode ter prorrogação e pênalti e aí vai passar das duas da tarde e não adianta mais trabalhar". "E se só voltarmos a partir de terça?" No final, deram uma olhada para fora, através da janela, e decidiram parar somente meia hora antes do jogo e voltar meia hora depois, prudentemente, como fazem os times de Tite: primeiro cuida da defesa, depois parte para o ataque...

Dizem que a Copa do Mundo é uma disputa de nacionalidades, não de meras equipes de futebol. Parece coerente. Adoramos torcer, por exemplo, para os times da África. Se bem que nenhum deles se classificou para a próxima fase.

E o Japão, hein, quem diria... No último jogo, deixou o bom futebol de lado porque o regulamento (número de cartões amarelos recebidos) o classificava para as oitavas de final. Gerou, entre sua população, um debate sobre a rígida moral e a honra japonesa, escanteada pelo futebol. Prova de que, de fato, Copa do Mundo não é só uma bola.

O mesmo vale para aquele episódio, nesta Copa da Rússia, em que dois jogadores da Suíça provocaram os jogadores da Sérvia fazendo, com as mãos, após um gol, o símbolo dos albaneses, grupo étnico do qual descendem e que é maioria em Kosovo, que se declara independente da Sérvia, mas esta não reconhece.

Tanto é verdade que a Copa é muito mais do que futebol que alguém já tinha visto Vladimir Putin tão simpático e acolhedor como nestes dias? Por falar nisso, além de sua seleção estar muito bem no torneio, o povo russo dá um show fora dos gramados. Coisa de gente inteligente, culta e que já passou, inclusive, por duas grandes guerras mundiais para estar no patamar em que está do ponto de vista civilizatório.

Voltando ao país verde e amarelo, nossa pátria mãe tão distraída, como não poderia deixar de ser, anda vendo tentativas de se fazerem tenebrosas transações enquanto contamos os dias para o próximo jogo da Seleção. O Congresso, sorrateiro, aprova leis que merecem de nós olhares mais apurados. Uma delas é a chamada "lei do veneno", que muda a atual legislação sobre os agrotóxicos.

Nada de novo nisso, infelizmente. Depois da Copa, o jogo é outro e o golaço será escolher alguém que nos governe com serenidade, Inteligência e liderança autêntica. Não precisamos de messias nem de malucos falastrões. Precisamos é de alguém muito sério e competente no comando técnico do Palácio do Planalto, como Tite comanda a Seleção.

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