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Discrição e humildade

15/07/18 07:00
João Jabbour

Dez dias após a eliminação do Brasil na Copa do Mundo da Rússia, os brasileiros, particularmente o jornalismo esportivo, ainda discutem e tentam entender por que Neymar não brilhou em campo (nem fora dele). Mais do que isso: por que o mundo todo está achincalhando o craque.

Aturdidos entre a necessidade de adorarmos um dos poucos ídolos de que dispomos e os imperativos nem sempre agradáveis da razão, muitos não conseguem uma explicação e se contradizem a todo momento. Na última sexta-feira, até o presidente da Fifa, Gianni Infantini, não resistiu e, durante uma entrevista, enalteceu o camisa 10 da Seleção mas, ao mesmo tempo, ironizou as quedas e simulações do atacante.

Para um jogo, não há mesmo explicação para derrotas, eis que se trata exatamente de um jogo, imponderável e baseado em grande medida na tentativa e erro. O que é tangível e pode ser discutido é o amontoado de táticas e estratégias que envolvem uma partida de futebol, mas que nem sempre a definem.

Pois bem, saímos da Copa e ainda vemos nosso melhor jogador sendo motivo de chacota e críticas. Claro que há muito de inveja e de tentativas para desvalorizar o que é nosso mundo afora. Mas há também motivos reais e concretos para que essa celeuma esteja instalada há semanas.

O comportamento do próprio Neymar, dentro e fora do campo, é o combustível que alimenta a engrenagem detratora da opinião pública.

Olhando do ponto de vista puramente humano, é evidente que Neymar não teve uma educação para o sucesso absoluto. Muito menos o ambiente cultural do futebol é propício à formação de um gentleman ou para fazer dos jogadores pessoas altamente conscientes sobre os limites da etiqueta social.

Mas Neymar não deve ser execrado por isso, porque não é exclusividade dele. Na média, somos assim aqui neste Brasil de pouca educação formal e informal e atrelado à cultura da dependência. Via de regra, não sabemos como lidar com a fama e o dinheiro, sejam eles momentâneos ou duradouros. Também não sabemos nos comportar sem fama e sem dinheiro.

Neymar é um jovem de 26 anos que, por suas excepcionais habilidades com os pés, teve de encarar logo cedo as obrigações de um universo onde tudo acontece muito rapidamente por exigência do mercantilizado futebol, fonte de bilhões em audiência e em dólares, euros, petrodólares e, agora também, em renminbis (moeda chinesa).

Arriscando uma análise leiga, a uma enorme distância e sem conhecê-lo pessoalmente, mas observando atentamente seus movimentos, diria que lhe falta investir bem mais em dois atributos básicos e sólidos: discrição e humildade.

Claro que é impossível ser discreto no pedestal da fama. Mas a observação que tento fazer não é no sentido de que ele deva abominar os holofotes, mas sim lidar no ponto certo com o assédio, as críticas e os elogios, tendo um pouco mais de parcimônia para entender que ídolos são cultivados também para que as pessoas exerçam suas catarses pessoais.

Portanto, não dá para, o tempo todo, sentir-se perseguido por todas as idiossincrasias do comportamento e da cultura alheia e ser uma espécie de 'senhor não me toque'. Há que desenvolver filtros mentais para não se sentir ofendido a cada crítica, algo que, parece, Neymar ainda não encontrou. Se é a fama que lhe dá tudo o que tem, então tem que saber lidar com ela sem pisar na bola.

Quanto à humildade, esta se encontra em destaque na cartilha básica dos jogadores de futebol, que a citam a cada cinco palavras nas entrevistas. Mas entre o discurso e a prática há uma distância maior do que a de um campo de futebol.

Humildade é um valor humano e um blindagem que, se bem utilizada, serve para acalmar o espírito contra arroubos de soberba, mantendo os nossos pés no chão, e também para moldar um comportamento no estilo 'gente como a gente', mantendo a proximidade salutar com a grande plateia, razão de ser do artista. Durante os jogos e andanças da Seleção, ficou nítida a preocupação de Neymar em se distanciar de tudo e de todos.

Certamente, ele saberá tirar bom proveito da dura experiência que atravessa para se transformar, mais do que um ídolo, em um autêntico líder nos times que tiverem o privilégio de sua presença.

Toda torcida para ele!

 

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