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TOC, manias e broncas

29/07/18 07:00
João Jabbour

A primeira providência que adoto quando chego à redação do JC não é ensinada nos cursos de jornalismo. Imediatamente após o bom dia ou boa tarde, vou ao balcão onde ficam inúmeros jornais de várias localidades e os arrumo simetricamente... Com zelo especial pelo nosso periódico, evidentemente.

Neste momento, olhares de soslaio e lábios semicerrados com as extremidades levemente curvadas para cima dos jornalistas denunciam que estou fazendo algo que, se não chega a incomodar, causa ao menos risos discretos e, claro, comentários no café.

Tudo numa 'nice' (antigo isso, hein!).

Até já brincaram comigo sobre essa mania.

'Designei' a colega e amiga de fé Daniela Gregorio para me ajudar nos cuidados com nossa banca, já que ela senta-se ao lado. Vez ou outra, flagramos algum bagunceiro largando aquele monte de páginas reviradas e fora da ordem, tudo torto e amarfanhado. Até já fizeram isso de propósito só para ver minha reação (rsrsrsr).

Muitos de nós têm algum tipo de TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo, certo? Será que existe alguém que não os tem? Pode ser. Mas alguma pequena mania quase todos têm. Aliás, gostar de ver as coisas à sua volta limpas e/ou arrumadas não chega a caracterizar TOC. Talvez, neste caso, quem tem um problema e deve cuidar é quem gosta de viver no meio da bagunça e da sujeira.

Minha mania de arrumação deve ser um TOC de grau leve. Porque tem a preocupação adicional com a simetria. Mas nunca me peguei chorando, desesperado ou à beira de um ataque de nervos por ver objetos espalhados por aí, fora do armário ou da prateleira.

Mas há casos graves. O transtorno atinge a 8 milhões de brasileiros. Quem é diagnosticado com a doença sofre, pois tem obsessões e compulsões, que aparecem na forma de pensamentos, ideias e imagens que incomodam demais e geram ansiedade, medo e induzem a atitudes sistemáticas e perigosas.

O TOC relativo a doenças ou medo de contaminação, por exemplo, é complicado. Gera verdadeiro desespero e leva à higienização obcecada e nervosa de tudo, principalmente do próprio corpo e de objetos de uso pessoal e frequente.

Já a compulsão de checagem faz a pessoa viver a todo instante com a sensação de que deixou de fazer algo importante minutos ou horas antes, como desconfiar que não trancou a casa após ter saído e voltar para conferir. Coisa de doido, diriam alguns, pois além do pânico gratuito, os TOCs nos fazem perder horas do dia checando nossa rotina ou com pensamentos assombrados.

Estou falando sobre TOCs e manias porque a vida não é só pensar o tempo todo nas coisas grandes e importantes. Os pequenos e médios acontecimentos também compõem o cotidiano e merecem atenção.

Quer um exemplo? Não suporto entregador jogando panfletos na área de casa, colocando entre as grades, no portão, no limpador do para-brisa do carro, na maçaneta da porta, quando estamos parados no semáforo, embaixo de portas, no meio de janelas...

Apesar disso, não me nego a pegar quando estou no carro nem coloquei placa na grade de casa avisando que tem cão bravo. Muito menos fico estressado com os caras que entregam, pois estão trabalhando honestamente e merecem respeito. Mas não deveriam invadir assim o meu espaço. Se quiser, vou me informar sobre o produto que desejo adquirir, não é preciso me empurrar goela abaixo nem me lembrar de nada do que não me esqueci.

Não será difícil, daqui a pouco, um drone pousar no quintal ou na varanda de casa e despejar papéis anunciando produtos que não estou procurando.

Alguém pode dizer que isso é aborrecimento de gente chata. Olha, posso até ser um chato, mas não estou aborrecido com a vida. Apenas discordo de invasões a que empresas se permitem em relação a minha privacidade e intimidade. As liberdades e garantias individuais garantem o direito ao livre arbítrio sobre aquilo que desejamos acessar.

Por isso mesmo desligo todos os sinais de notificações que o celular emite. Pelo que percebo, a maioria faz isso. Caso contrário, são 24 horas de sinais eletrônicos irritantes roubando nossa atenção de coisas importantes ou mesmo do sagrado direito de ficar ao léu, curtindo o ócio, quando é momento para isso.

Obrigado por sua atenção.

A campainha está tocando. Vou ver quem é...

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