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Democracia em xeque

05/08/18 07:00
João Jabbour

Nosso País e o mundo se dividem hoje em dia em duas grandes demandas, muitas vezes antagônicas entre si: a necessidade de tornar mais eficiente e rentável a engrenagem do capitalismo, passando por cima até de situações que estavam consolidadas, como avanços ambientais e sociais, e, ao mesmo tempo, reduzir distâncias e barreiras entre as pessoas, na economia, na política, na cultura dos povos e nas relações entre grupos diversos, humanizando as relações.

Em meio a tudo isso, vivenciamos um momento em que a democracia é posta à prova e, no entender de alguns, dá sinais de esgotamento do atual modelo.

Para o cientista político João Pereira Coutinho, ironicamente, a democracia é vítima de seu próprio sucesso. Em recente artigo, intitulado "O cansaço democrático", ele argumenta que ao mesmo tempo em que a democracia avançou para garantir acesso de todos ao direito de se expressar, cobrar e participar ativamente das discussões e demandas públicas, passou da clássica forma representativa para uma espécie de democracia direta, gerando uma pressão tamanha que os governantes, já cheios de defeitos e máculas, não sabem o que fazer e, invariavelmente, metem os pés pelas mãos para se manterem aceitáveis e populares, tomando decisões esdrúxulas do ponto de vista político e administrativo.

Coutinho lembra que na democracia tradicional, como existia há alguns anos, o povo, através do voto, delegava poderes aos eleitos que, por sua vez, utilizavam uma espécie de filtro para arrefecer as irracionalidades da multidão, que podem ser tão tirânicas quanto um rei absoluto. E todos viviam felizes...

No artigo em questão, o autor se contrapõe às ideias do filósofo Vladimir Safatle que, no entender de Coutinho, defende a democracia direta, com todas as formas possíveis de controle popular, como modelo ideal de sistema político.

Estamos em uma fase conturbada da humanidade, impactada pelo fenômeno dos avanços tecnológicos e mudanças de comportamento, e temos de reaprender muitas coisas. Uma delas é como reescrever um pacto que permita às cidades, estados e ao país firmarem uma agenda mínima de recuperação, a partir de uma situação que admita o direito à convivência e ao antagonismo dos contrários, mas sem paralisar ou fazer retroceder a economia, as conquistas sociais e políticas.

Há, como já vimos com o diálogo entre Coutinho e Safatle, inúmeras tentativas de encontrar explicações e soluções. Uma das muitas buscas do entendimento encontra-se no livro "A doutrina do choque", da ativista canadense Naomi Klein, no qual ela afirma que a história do livre-mercado contemporâneo foi escrita em momentos de choques e que os eventos catastróficos são extremamente benéficos para as grandes corporações.

Segundo ela, as crises anestesiam e desorientam a sociedade e propiciam aos que detêm o poder político e econômico efetuar mudanças e reformas a seu bel prazer e interesses. Haveria semelhanças entre esta teoria e a reforma trabalhista brasileira, por exemplo?

Há inúmeros exemplos mundo afora da "doutrina do choque", conforme Klein, todos baseados na fórmula "crise seguida de intervenção pesada". Cita o ataque às torres gêmeas e a política de combate ao terror que se seguiu durante o governo Bush, com o início, entre outras ações, de uma guerra contra o Iraque sem motivo claro ou ligação direta com o ato terrorista liderado por Bin Laden, a não ser, talvez, pelo fato de o Iraque ter a terceira maior reserva de petróleo do mundo. E não dá para falar em crise na democracia sem falar na tragédia em que se transformaram os partidos políticos no Brasil, agremiações que deveriam ter um programa com o qual os eleitores se identificassem e que, portanto, os representassem ideologicamente.

Mas a perda quase total de ideais dos partidos como intermediadores da população faz com que eles sejam, em sua maioria, apenas clubes de barganhas para se chegar ao poder. Por isso cresce a defesa das candidaturas avulsas, sem que seja necessário estar filiado a um partido.

Lá atrás, Platão já dizia: "A democracia é uma constituição agradável, anárquica e variada, distribuidora de igualdade, indiferentemente a iguais e a desiguais".

Ou, mais recentemente, Carlos Drummond de Andrade provocava: "Democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder".

 

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