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Nem tanto ao cu nem tanto terra

26/08/18 07:00
Joo Jabbour

Faltando pouco mais de um mês para as eleições quase gerais no Brasil, a essa altura ainda com tímida presença das candidaturas nas ruas, parece haver duas sensações em relação a este fato importante da democracia. Uma gera a expectativa de que, enfim, muita coisa pode mudar, na avaliação principalmente de quem ainda acredita na via política. E a outra, de que tudo ficará na mesma após 7 (primeiro turno) e 28 de outubro (segundo turno), oriunda de gente que cansou-se da hipocrisia que tomou conta dos setores públicos e privados.

Ambas têm bons fundamentos, mas também sérios equívocos.

Quando estamos em situação de crise, seja pessoal ou coletiva, um fato novo, por menos consistente que seja, nos faz aumentar a esperança em dias melhores. Mas também nos põe céticos em relação a tudo e a todos.

Como temos de continuar vivendo e enredos que se encaixam perfeitamente só existem em filme e novelas, é preciso exercer nossos papéis de atores sociais da melhor forma possível, com mais reflexão do que de costume, com desprendimento que pouco se pratica no dia a dia, com o bom senso que nos falta nas situações-limite e com a coragem que quase sempre é suplantada pelo comodismo e pelo medo generalizado de perder o pouco (ou muito) que possuímos.

E assim, eleição após eleição, aos 33 anos de reconstrução democrática, presidentes, deputados, senadores, prefeitos e vereadores cassados, leis e mais leis promulgadas, prisões, protestos na rua, greves e paralisações, tudo parece estar como sempre foi ou, como no presente instante, até pior.

Por sinal, a contrariedade generalizada e a falta de unidade de pensamento nacional são tamanhas e criaram uma divisão de tal grandeza que há dois 'brasis' dominando a cena atualmente: aquele que vive sonhando com a volta dos anos de bonança gerados pelos programas sociais generosos e o que tem saudade dos tempos de uma sociedade conservadora e fechada, em que havia um aparente estado de ordem imposto pelo Estado.

As pesquisas mostram esse contraste e apontam que, se fosse hoje, o segundo turno da eleição presidencial teria um candidato que representa o primeiro período do parágrafo anterior - Lula - e o que representa o segundo - Bolsonaro. Os dois extremos opostos da vida política e ideológica nacional.

O centro, ou seja, o modelo tradicional de fazer política, seja mais ao social ou mais ao mercado - representado pelos políticos que estão na lide há tempos - Marina, Ciro, Alckmin, Meirelles e Álvaro Dias - está fadado ao segundo plano e só tem alguma esperança de disputar a Presidência em razão do quase certo impedimento da candidatura de Lula.

Ou seja, estamos à véspera de uma eleição que para um grande contingente significa uma guinada ilusória a uma época em que o Estado dirigia a sociedade com mão de ferro e para outro enorme segmento seria o retorno a um tempo de assistencialismo exagerado que Estado nenhum no mundo aguenta por muito tempo sem causar graves danos a seu próprio equilíbrio fiscal, com reflexos perversos na economia do país.

Segundo as pesquisas, neste cenário polarizado estão quase 60% dos eleitores que se dispõem a votar. Os outros 40% fragmentam-se nas opções do chamado centro que, por sua vez, falhou demais nas últimas décadas e por isso não consegue mostrar aos eleitores que pode ser viável e que não há milagre nem solução mágica no horizonte do Brasil.

Quem sabe a campanha eleitoral no rádio e na TV consiga discutir um pouco este dilema e chame os brasileiros à ponderação e ao entendimento de que não vamos resolver os problemas nacionais apenas elegendo um 'mito', um 'messias' um 'cara' ou um 'herói', principalmente se ele não se dispuser a ser um presidente da República com predicados pessoais e políticos que o façam obter a crença e a confiança de todos de que pode liderar o País.

A busca de soluções para nossa complexa situação exigirá escolhas com efeitos a curtíssimo, mas também a médio e longo prazo.

Nos metemos em uma fria e agora temos de ter paciência e muito equilíbrio para sair dessa.

Com ações estabanadas e afoitas apenas nos afundaremos ainda mais na areia movediça da história.

 

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