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O fim de uma era

19/08/18 07:00
João Jabbour

"E atenção, durante 27 anos o Repórter Esso, a Testemunha Ocular da História, esteve presente nos mais importantes acontecimentos ocorridos no Brasil e no mundo. Entrando no ar pela primeira vez em agosto de 1941, durante seus primeiros quatro anos de vida o Repórter Esso foi sempre o primeiro a dar as últimas durante a Segunda Guerra Mundial..."

Em dezembro de 1968, lutando para controlar a emoção, mas chorando ao final, Roberto Figueiredo, o último Repórter Esso, anunciava, pelos microfones da Rádio Globo do Rio de Janeiro, o fim do programa jornalístico que marcou época e parava o País durante as transmissões. O noticiário foi o mais famoso 'jornal falado' do Brasil nos anos 1940, 1950 e 1960, sendo transmitido inicialmente pela conhecida Rádio Nacional do Rio de Janeiro e em emissoras de outros estados.

Agora, em outra dimensão, mas ainda no rádio, chegamos a mais um final de transmissões radiofônicas. A partir desta semana ou, no máximo, nas próximas, Bauru não terá mais o rádio AM.

As duas emissoras que ainda 'irradiam' em Amplitude Modulada (AM) - a antiga Auri Verde (atual Jovem Pan News) e a rádio Bandeirantes - silenciarão as famosas 'estações' 760 e 1.160 no dial de nossos aparelhos receptores.

Elas continuarão existindo, mas em Frequência Modulada (FM). A Pan News em 97,5 e a Band, com o nome de Nativa, em 91,5.

Não é fácil, mas seria interessante se as referidas emissoras fizessem uma programação especial no último dia de transmissões em AM, talvez com a presença de grandes nomes que marcaram o rádio e que estão por aí, como João Costa, Barbosa Jr., Tuba Ferreira, João Bidu, Pedro Norberto, Paulo e Netão Simonetti, Mário Moraes, Walter Lisboa, Cilene Barros, Cláudio Petroni, Maria Dalva, entre outros que, perdoem a falha, não me lembro agora.

Também sou radialista de formação e prática e tive o prazer de trabalhar no rádio AM durante 4 anos, de 1985 a 1989, na Auri Verde. Depois, fui para a 96 FM (então Rádio Cidade), onde a alegria e o entusiasmo foram os mesmos, eis que o rádio é um veículo instigante e há décadas antecipa a instantaneidade dos fatos, muito tempo antes do surgimento da Internet. Até hoje, segue com sua magia, agora também no universo digital, ampliando horizontes.

Os tempos atuais são de grande e contínua revolução nas tecnologias, envolvendo e impactando demais a imprescindível atividade da comunicação. Não podemos negar os avanços nem nos prostrarmos zangados com as mudanças.

Assim como muita gente que conheço, sentirei saudade do 'chiadinho' de fundo do AM local. Minha geração e as anteriores nasceram e cresceram com ele nos embalando até mesmo para dormir o sono dos justos. Quantas vezes não acordei com o rádio ligado, todo torto ao lado do travesseiro e o Walter Neto anunciando o final da madrugada e a chegada de mais um dia; também com O Pulo do Gato (na Band, com José Paulo de Andrade), que começa na madrugada e já completou 45 anos no ar. Entre tantos outros.

Não estava entre os mortais ainda, mas fico imaginando as novelas transmitidas pelo rádio, que instigavam ao extremo nossa imaginação, não nos deixando cerebralmente estáticos e preguiçosos como faz a televisão, que nos dá tudo pronto e acabado através do som e, sobretudo, da imagem, além do controle remoto.

O rádio AM não vai cessar no País nem na região, pelo menos por enquanto. Nosso editor regional, o Aurélio Alonso, já iniciou um levantamento e em breve teremos uma reportagem sobre o assunto. Além do que, de FM estamos muito bem servidos.

O que me toca, realmente, neste momento é que estamos assistindo ao término de uma era de grande significado e significância para o País. E isso é digno, ao menos, de se notar. Como o jornalismo é o registro cotidiano da história, não poderia me furtar a tal fato tão emblemático.

Sai de cena o som mais grave do AM e fica o som estéreo e agudo do FM. Perdem-se no ar os quilohertz do rádio AM e proliferam-se os megahertz do FM. Mas ficam as lembranças de tão bons momentos eternizados por vozes potentes e marcantes de homens e mulheres que nos descortinavam o mundo.

Se Fiori Giglioti, um dos maiores locutores de futebol do rádio brasileiro, estivesse vivo, colocaria o AM em seu 'Cantinho de Saudade', emocionante programa que registrava as gloriosas lembranças dos craques do passado.

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