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Paixão versus razão

30/09/18 07:00
João Jabbour

Por que este tema? Porque hoje é o último domingo antes das eleições que ditarão os rumos do Brasil no futuro imediato e de longo prazo. O processo político brasileiro - não é novidade para ninguém - ganhou contornos definitivos de polarização entre os dois vetores da alma: paixão e razão.

Por sinal, estes se apresentam a nós em cada instante de nossas vidas privadas, nas pequenas e nas grandes decisões que tomamos. Mas quando temos de nos posicionar coletivamente, devemos ao menos estar cientes de que os impactos resultantes de nosso estado de espírito ganham dimensões muito mais amplas.

As crises que criamos para nós mesmos enquanto sociedade, seja por ação ou por omissão, aguçam esta dicotomia, que sempre existiu, mas que agora se apresenta com amplitude e clareza jamais vistas, assumida, sem receio nem culpa, pelos atores de nosso belo quadro social e político.

Não é o caso aqui fazer juízo de valor a favor ou contra quem age de um jeito ou de outro. Embora o senso comum diga que devemos nos guiar pela razão na política, a paixão (ou emoção) talvez se justifique na medida da desesperança das pessoas no que é o convencional e não responde mais aos anseios gerais. Não só não dá mais respostas como não foi capaz de manter o país em condições tais de civilização que não fizesse parcelas amplas da sociedade apelar à busca de extremos para resolver seus problemas.

Talvez a história nos imponha esse lugar de passagem: uma eleição decidida com base na intuição, pela emoção exacerbada latente na sociedade.

Segundo Platão, a alma é como um cocheiro que segura as rédeas de dois cavalos, um branco e outro negro, cada qual puxando para um lado. Um dos cavalos representaria o impulso apolíneo do homem, ou seja, a razão, sobriedade, serenidade. O outro cavalo representaria o impulso dionisíaco, das paixões, desordem, embriaguez. Cabendo ao cocheiro decidir por qual dos cavalos deixar-se guiar - pela razão (Apolo) ou pela paixão (Dionísio).

Cabe uma importante ressalva sobre a paixão e a razão. Não se trata de desqualificar ou atacar, de forma maniqueísta, nenhuma dessas manifestações da nossa psique. Aliás, a vida sem paixão seria árida demais, assim como sem razão seria um caos.

Mas o contexto a que nos referimos aqui é o que está em jogo no universo da política, da eleição, do governo, do poderoso e causativo papel do Estado na vida das pessoas. Então, pode ser mais prudente jogar energia na balança da razão, porque os eleitos tomarão decisões concretas que nos afetarão, direta ou indiretamente, o tempo todo.

E para que decisões sejam tomadas da forma mais justa e equânime possível em relação ao todo, é necessário tirar conclusões a partir da conexão de ideias baseadas nas regras universais da civilização, que deixem bem claras ou explícitas as causas e efeitos das atitudes. A razão é, assim, associada ao que é único e definidor do ser humano.

E a paixão? É um conjunto de sensações positivas, derivadas do amor, do afeto, do bem querer, quando se trata de relações pessoais. Mas na política, via de regra vem associada a excesso, impulsividade, inquietação... Pode causar "cegueira mental". Quando ficamos apaixonados por algo, desconsideramos os defeitos, por vezes nem os vemos, para só sentirmos seus reflexos mais adiante, gerando outra forma de emoção, o ódio.

Mas, repito: nada contra quem vai votar basicamente para negar o que o atual establishment político tem feito com o País. É um direito sagrado de escolha. Ao menos o brasileiro está discutindo política. Os brutais desajustes na esfera pública finalmente fizeram boa parte de quem estava acomodado acordar para a vida nacional. Depois dessa, teremos outras eleições e entre elas as ruas para protestar ou aplaudir.

É a democracia...

"A razão e a paixão são o leme e as velas da alma navegante. Sem ambos, ficarias à deriva ou parado no meio do mar. Se a razão governar sozinha, será uma força limitadora. E uma paixão ignorada é uma chama que arde até sua própria destruição." Khalil Gibran

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