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Pelo retrovisor

16/09/18 07:00
João Jabbour

Faltando 22 dias para a eleição de 7 de outubro, está cada vez mais nítida (e crescente) uma polarização entre duas candidaturas, na verdade, entre duas proposituras, fruto das expectativas, angústias e medos de grande parte dos brasileiros quanto ao presente e ao futuro do País. De um lado está uma parcela da população majoritariamente da classe média (com inserção também em classes mais pobres) que tem a vontade de que o Brasil volte a um tempo, ainda fresco na memória, de suposta segurança moral com progresso, daí apostar na candidatura tida de linha dura.

A parte contrária é formada por classes mais pobres, que vivem o saudosismo de um recente período populista-assistencialista dos programas sociais, aliado a uma época de relativa estabilidade econômica, em grande medida devido à calmaria da economia internacional. Ambos os lados vivem temores acentuados e se apegam aos candidatos que mais representam o universo de suas angústias. O resultado é: Bolsonaro versus Haddad (Lula). Que representa a hipotética volta ao tempo do “este é um país que vai pra frente...” e o “ame-o ou deixe-o” contra o que encarna o auge do Bolsa Família e do Minha Casa Minha Vida.

O curioso, e preocupante nisso tudo, é que esses dois substratos importantes da população, que representam praticamente 60% do eleitorado atualmente, tem seus olhos no retrovisor, olham para o passado, para trás e depositam esperança em fatos e comportamentos que prevaleceram durante algum tempo, em determinadas épocas, mas que não têm serventia ou sentido algum para o presente e muito menos para o futuro, porque experiências se esgotam e a evolução dos fatos, para o bom e para o ruim, requerem novas soluções. Disso, sobra um terço para outros 11 candidatos, uns trafegando entre o pensamento liberal e o de esquerda e outros entre o pensamento liberal e o de direita, o que também nos remete ao passado.

E todos taxados, aos olhares severos mas pouco politizados e aflitos das massas, de políticos tradicionais, “farinhas do mesmo saco”. O fato de grande parcela da população estar tentando enxergar no passado um caminho para o futuro, idealizando experiências esgotadas, se dá pela absoluta incapacidade de vislumbrar no futuro as soluções e ideais necessários. Somos, hoje, uma nação retrotópica, que se encaixa nos conceitos críticos pós-modernistas de Zygmunt Balman, um dos grandes pensadores das agruras do século 21. Retrotopia é o título de um livro de Balman e significa mais ou menos o que já dissemos acima: sermos incompetentes para criar novas utopias e vivermos à mercê de utopias esgotadas, velhas e comprovadamente ultrapassadas. O objetivo já não é conseguir uma sociedade melhor, porque consegui-lo parece uma esperança vazia, mas apenas melhorar a posição individual dentro da mesma.

Num oportuno artigo de Vítor Belanciano sobre a retrotopia, no site Fronteiras do Pensamento, ele argumenta que a partir da década de 80, esgotadas as experiências totalitárias (fascismo e o comunismo) mundo afora, e agora sob impacto vigoroso das novas tecnologias, notadamente a Internet, achávamos que os problemas fundamentais do mundo seriam resolvidos com pleno desenvolvimento. Pensou-se que seriam gestados novos modelos políticos e socioeconômico mais equilibrados para propiciar novo salto à civilização. Mas nem tudo (ou quase nada) saiu como fora imaginado.

O desemprego cresceu com a automação, o fosso social se acentuou e o medo da exclusão aumentou entre as famílias. Entramos, então, na era dos “re” – revival, reengenharia, remember, remake, reformulação, revivalismo, entre outros “re” - e passamos a buscar no passado a saída para o que nos frustrou no presente. Só fui buscar um pouco de teoria para lançar um facho de luz no que estamos vivenciando no processo eleitoral. Esse é o quadro da campanha do primeiro turno. O segundo, independentemente de quem estará nas urnas, vai ser consequência do primeiro. Nunca precisamos tanto pensar em quem vamos votar. Não basta apenas a fórmula tradicional de olhar o currículo do candidato. É preciso entender em que momento da história nos encontramos e as consequências de nossas escolhas.

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