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Medo de viver

18/11/18 07:00
Cinthya Nunes*

Para meu pesar, tenho acompanhado vários casos de jovens que desistiram da própria vida e contra ela atentaram, cometendo ou tentando cometer suicídio. Em qualquer momento da vida é lamentável que surja o desejo de que ela se abrevie, mas sem dúvida isso é trágico quando envolve pessoas jovens, repletas de vida.

Eu fico me perguntando o que leva alguém a querer tirar a própria vida. Por certo que há momentos difíceis na existência humana e que alguns deles são especialmente marcantes e quase insuperáveis, mas nem sempre quem tenta o suicídio se encaixa na hipótese de alguém vítima de sofrimento palpável.

Muitas vezes eu desejei poder ter vinte e poucos anos novamente, até para poder repensar escolhas e recalcular rotas, mas quando me recordo de como era frágil o meu sentir, de como eu me preocupava com coisas que nunca aconteceram, concluo que Deus é mesmo sábio e que não há preço para Paz de Espírito.

Ao constatar tantos jovens buscando brechas para escapulir da vida, muitos movidos pelo medo de prosseguir vivendo e de não serem capazes, de falharem em suas missões terrenas, eu acalento o todo desejo de conseguir dizer a eles que só precisam ter paciência, que tudo vai dar certo, mas que não há propriamente finais e mais vírgulas, pausas para descanso.

Quando eu era adolescente, uma colega se suicidou. Ao que consta, depois de ter dado um tiro em si mesma, arrependeu-se, mas já era tarde demais. Aos dezesseis anos, foi vitoriosa em seu intento, fracassando em viver. Morreu no mesmo dia em que meu avô e eu só fazia pensar o quanto era estranho que ele, aos 83, tivesse partido a contragosto e ela, cheia de vida, optasse por abreviar os muitos dias que se teriam deitado aos pés dela.

Alguns anos depois, quando eu já estava na faculdade, uma colega de classe, com a qual eu havia conversado poucos dias antes, foi passar o fim de semana com os pais e não voltou mais. Arremessou-se de um barranco e se foi, diante dos incrédulos olhos do irmão mais novo, para os domínios do Divino. Ela não era minha amiga, para ser sincera, mas até hoje, mais de vinte anos depois, eu ainda luto mentalmente para me lembrar do nome dela.

Nessa semana, atendi um pai de uma aluna e foi bem complicado achar as palavras adequadas para consolá-lo, para dizer a ele que as coisas vão se resolver e que a filha, uma jovem de pouco mais que vinte anos só devia estar um pouco deprimida e que por certo não pensou no que fez.

Com a voz embargada, o pai me olhava como se eu representasse um refúgio, como se eu tivesse alguma resposta ou pista sobre o que levara a filha a atravessar esse limite tão fatal. Eu bem que gostaria de poder ajudar, de conseguir resumir os problemas da moça e, a partir deles, agir para que outros não se "refugiem" na mesma fuga. Mas não tenho. Nem faço ideia. Ofereço um abraço e ele, com lágrimas nos olhos, aceitou.

Em tempos de tantas informações integradas, de comunicações por segundo, parece-me que muita gente vive isolada e infeliz. Quando buscam por um mundo virtual no qual possam se esconder, o reflexo da tela revela seus próprios rostos e nada mais. Trata-se de uma ilusão, nada mais.

A cada dia novos casos surgem e eu sigo me alternando entre o alívio de ver que muitos falham e que ganham uma nova chance de se superarem, de se reinventarem e entre a dor de saber que tantos vivem no limite, desacreditados, desesperados. Uma juventude de almas doentes, massacrada pelos males do século, da solidão acompanhada...
* A autora é jornalista, professora universitária

e advogada - [email protected]

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