Previsão do Tempo
Bauru
Segundando

Os bons e os novos tempos

30/12/18 07:00
João Jabbour

É difícil sabermos no momento presente se uma sensação ou constatação de algo está correta ou se podemos estar precipitados. A certeza, quase sempre, só vem com o tempo. Mas temos de tomar decisões ou tirar conclusões hoje, rapidamente. O mundo não espera. Quanto mais ligeiros formos mais vantagens teremos na louca corrida em busca sabe-se lá de quê.

Neste final de ano, o saudosismo aflora e amigos me pedem para falar sobre os bons tempos que se foram e não voltam mais. Também sobre o quanto pioraram algumas regras básicas de convivência, principalmente entre pais e filhos.

Desconfio que cada geração tem suas próprias verdades, gestadas um parte na herança moral e ética que recebe e outro tanto no ambiente que a cerca. Acho que não faz muito sentido impô-las, integralmente, às gerações seguintes. Apenas desconfio, não tenho certeza...

Recebi dia desses a afirmação: "Somos os cinquentões, sessentões, setentões, a última geração que respeitou para valer seus pais, seus tios, seus professores e que prezava a liberdade acima de tudo. Somos uma edição limitada... e estamos indo. O mundo está sendo destruído hoje por falta de algo que tínhamos em abundância, no passado: amor e respeito ao próximo."

Fico imaginando o que pensava de si a geração dos oitentões, noventões e centenários e as críticas que faziam à turma que viria imediatamente a seguir, ou seja, os hoje cinquentões, sessentões e setentões.

Certamente abominaram algumas coisas, tipo a revolução sexual dos anos 60, a mudança da estrutura da família nuclear (pai provedor e mãe dona de casa), o esvaziamento das igrejas tradicionais como fonte da educação moral, o ganho de poder da juventude, a modificação da noção de felicidade e o impacto imenso da comunicação de massa (na época, rádio, TV e jornal) sobre um número cada vez maior de pessoas.

Depois, todos se acostumaram e nada de mais grave aconteceu. Sobreviveu-se às revoluções na cultura.

"Mas uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa...", diria alguém. Sim, surge outro problema quando falamos de um tema tão vasto. É difícil separar o que é "bom" do que é "ruim". Mas vale dizer que os conceitos de bom e ruim são altamente relativos aos bons costumes do lugar e época em que vivemos.

Ainda assim, a humanidade consegue obter consenso em algumas poucas coisas. Exemplos: a liberdade individual cresceu e o consumismo materialista também. Acho que qualquer pessoa de bom senso concorda que são situações, respectivamente, boa e ruim.

Como também há valores universais consagrados que ainda resistem, apesar de todos os ataques que sofrem, tais como liberdade, justiça, generosidade, amor, paz, solidariedade e honestidade, conceitos presentes em todas as culturas. Imagino ser aqui o ponto crucial para esta análise superficial. Os cinquentões, sessentões e setentões sentem falta destes ingredientes essenciais à vida. Mas lá vai uma pergunta incômoda: o que fizemos para preservá-los?

No mais, o tempo e os avanços da ciência, da tecnologia e do conhecimento em geral mudam mesmo os hábitos e as décadas e séculos acrescentam novos valores universais e suprimem outros. O restante é pura nostalgia (algo que se foi e sobrevive em doces lembranças sensoriais).

Que não se recorda com prazer das ligações telefônicas no orelhão ou, antes mesmo, do pedido à telefonista e a espera de algumas horas para falar com um tio. O chiado de fundo do disco de vinil, o barulhinho da máquina de escrever e as aulas de dona Celina (para quem era criança pequena em Bauru), do toca-fita do carro que mastigava a fita bem no meio da principal música e a gente tentando arrumar com uma caneta Bic.

O Ki-suco na lancheira da escola, da antena que a gente tinha de virar no telhado de casa para pegar melhor um dos 5 canais que tínhamos para ver. As fotos feitas com máquinas e filmes de 12, 24 ou 36 poses, que muitas vezes 'queimavam' ou ficavam desfocadas e não havia como checar na hora do aniversário. Os doces que o dono da padaria mandava em um saco de papel quando nossos pais pagavam (religiosamente) a conta marcada na caderneta a cada final de mês.

O pão e o leite entregues de madrugada em nossas casas sem muros altos, concertinas ou grades intransponíveis. A bala Soft... e a pipper, o pirulito Zorro. A conga e o Kichute... (lembranças emprestadas de um texto que circula nas redes sociais).

Os velhos e os novos tempos. Todos são bons para nos sentirmos bem. Basta viver serena e dignamente.

Ler matéria completa
Mais notícias em Segundando
As mais compartilhadas no Face
Recomendado
voltar ao topo