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Pressão absurda!

17/02/19 07:00
João Jabbour

Ando abismado com o 'vulcão em permanente estado de erupção' em que se transformou o futebol no Brasil e, certamente, em outros locais onde esse esporte significa um dos pouquíssimos prazeres que um cidadão enxerga à sua frente. Ou um desafogo para suas frustrações.

A derrota do São Paulo para o argentino Talleres, na última quarta-feira, pela Copa Libertadores, quase virou outra tragédia, não fossem as demais torcidas terem adorado o resultado e o futebol estar na segunda divisão dos grandes problemas nacionais. Foi um drama, de verdade, para o técnico André Jardine, que estava iniciando carreira em um time de ponta e, agora, verá as portas se fechando daqui para frente. Foi demitido, obviamente. Solução clássica, fácil e perversa nestas situações.

Só que não parou por aí. Mais de mil torcedores ficaram até a madrugada em frente ao portão principal do Morumbi entoando frases e refrãos pesados contra jogadores e diretoria. Fiquei pensando: e o trabalho naquele mesmo dia, dali a poucas horas, em uma cidade cujas distâncias são enormes?!

Simultaneamente, a crônica esportiva nacional tratou o assunto como o pior acontecimento da história do clube brasileiro que mais torneios internacionais conquistou (ganhou 3 mundiais e 3 Libertadores, entre outros). Comentários indignados, forçados e exaltados me fizeram mudar de canal em busca de lucidez e análises mais realistas, mas elas são raras. Na televisão, o que tem de prevalecer é o espetaculoso, o sensacional.

O ex-jogador Tostão, sempre muito lúcido, escreveu outro dia que o futebol brasileiro é arcaico, ultrapassado. Certíssimo! E não temos a humildade de reconhecer que nosso estilo de jogo há tempos não é o melhor nem da América do Sul, quiçá do mundo. Mas isso fere nosso orgulho a tal ponto que é melhor não pôr tal constatação à mesa. Porque significa também perda de dinheiro para quem detém os direitos de transmissão dos jogos e para os que vivem deles.

Por conta desse e de outros fatores, vem a ansiedade generalizada e insana, principalmente em clubes que investem milhões de euros e dólares em jogadores bajulados, criando a falsa expectativa de que apenas gastar dinheiro leva ao paraíso.

O Palmeiras e o Flamengo são exemplos. Têm jogadores badalados há um bom tempo, mas ainda não chegaram nem perto dos objetivos traçados. São clubes 'condenados' a ganhar tudo. Caso contrário, é drama a dar com pau. Com o Tricolor paulista também tem sido assim.

Faço, em tempo, um parêntese: com os salários astronômicos que têm, jogadores de grandes clubes devem ser cobrados mesmo. E muito! Mas com racionalidade e inteligência, artigos que nunca foram o forte entre dirigentes e fanáticos por times no Brasil.

Sou de um tempo em que nos esportes em geral havia duas opções a quem praticava ou torcia: perder ou ganhar. Simples assim. E depois do jogo, paz, gozações saudáveis e olho no próximo compromisso. Hoje em dia, é proibido perder! Só que as regras universais ainda são as mesmas: um time tem de perder para outro ganhar. E não vai mudar.

Quem não se lembra do 7 a 1, jogo que foi considerado um desastre verde-amarelo para a história, deixando feridas na alma e na honra nacional que nem o tempo cicatriza. Mas era apenas uma partida de futebol. E os fatos que se seguiram àquele jogo de 2014 na economia, na política, na moralidade suplantaram em muito o vexame de 90 minutos em campo.

PS: Por falar em Talleres, viram o gesto de grandeza da equipe após o empate contra o São Paulo? Os próprios jogadores limparam o vestiário do Morumbi, deixando-o como o encontraram, e ainda escreveram uma mensagem muito bacana aos tricolores e a todos nós. Estão ou não à nossa frente?

Comparem as folhas de pagamento das duas equipes. A do São Paulo deve ser no mínimo o triplo a mais. Isso tudo se reflete em campo. O time de Córdoba tem jogadores maduros, conscientes, seguros do que querem e podem fazer. Resultado: conquistas! Se perderem jogos ou o título, não vai acontecer nada demais em suas vidas.

Que tal seguir o exemplo dos hermanos?

É demais? Então, criemos nossos próprios exemplos, levando a vida a sério, mas de forma natural e ponderada.

 

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