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Zeladoria municipal

03/02/19 07:00
João Jabbour

Ao lançar um plano de combate à dengue e escorpiões, na última terça-feira, o prefeito Clodoaldo Gazzetta usou uma expressão interessante e sintomática: "A prefeitura vai implantar um novo modelo de zeladoria para a cidade".

Destaco o verbete zeladoria. Ele pode definir a melhor e possível obra deste e de outros governos municipais em tempos de escassez total de dinheiro.

Para se ter uma ideia, o secretário de Finanças, Everson Demarchi, disse anteontem que, feitas as contas, a Prefeitura de Bauru terá exatos R$ 800 mil reais para gastar (investir) neste ano, excetuando-se as despesas obrigatórias com saúde, educação, custeio da máquina pública, entre outros itens essenciais. Portanto, não há mágica possível nem utópicas perspectivas desenhadas no horizonte visível.

E não dá para esperar quase nada dos governos estadual e federal neste e nos próximos anos em termos de repasse de recursos a fundo perdido (sem necessidade de restituir), porque a vida não está fácil para nenhum ente federativo. A dívida pública da União, por exemplo, chega a quase R$ 4 trilhões (perto de 80% do PIB, que é toda a riqueza que o País produz em um ano).

Então, o melhor que os prefeitos têm a fazer, em sua última metade de mandato, que se reduz, na prática, a mais um ano e meio, devido às restrições do período eleitoral, é zelar pela funcionalidade da cidade e o bem-estar de seu povo, e prepará-la para um novo ciclo.

Cuidar de uma urbe não é apenas fazer asfalto, varrer as ruas e não atrasar a coleta de lixo. É, também, prepará-la para um futuro de curto e médio prazos mais promissor, com a modernização possível da estrutura administrativa e do ordenamento jurídico municipal.

Neste último aspecto, desde a eleição o JC levanta a bandeira do destravamento da cidade. A atual gestão (bem como todos os candidatos à época) abraçou a ideia e já realizou sensíveis mudanças na legislação, ainda que outras providências estejam por ser adotadas. É uma obra que não salta aos olhos da população imediatamente, mas é fundamental, e o passar do tempo dará os devidos créditos ao prefeito e sua equipe.

Zelar pela cidade é também, em tempos pós-recessão/estagnação da economia, entrar em fina sintonia com quem possa nos representar lá fora (deputados, por exemplo), com o Poder Legislativo e a parcela privada da vida municipal - empresas e trabalhadores - para, juntos, detectar vocações, potencialidades, possibilidades e alavancar o desenvolvimento em bases sólidas, planejadas, com a necessária liderança daquele que a cidade escolheu para estar à frente de processos com esta magnitude - o prefeito.

Para criar um ambiente propositivo e sinérgico não é necessário ter os cofres cheios. Depende de uma postura firme, decidida e, acima de tudo, de sensibilidade política para perceber, avaliar, estudar, ouvir gente consequente e definir qual é a melhor estratégia e onde está o bom caminho a ser seguido.

Em Bauru, a prefeitura consegue manter na perenidade um providencial equilíbrio fiscal (receita X despesas pagamento de dívidas). Com tantas cidades e estados literalmente quebrados, manter o orçamento em ordem virou 'obra de governo', embora seja obrigação.

Ah, mas e a próxima eleição?! Na medida do possível, os prefeitos podem cuidar de sua popularidade visando à preservação de seus planos políticos. Mas os dois próximos anos (este e 2020), à luz das expectativas gerais de mudanças profundas no comportamento do homem público, são uma oportunidade sem igual para os prefeitos e vereadores darem exemplos de compostura ética e de competência.

A reeleição virá naturalmente para quem agir com decência e probidade. O cidadão médio aprende, a cada dia, a reconhecer e, principalmente, a diferenciar o bem do mal intencionado, o bom do mau administrador.

Foi-se a era em que grandes obras de um governo eram construir prédios suntuosos, largas avenidas, viadutos e monumentos faraônicos. Isso é bom, mas a hora, agora, é de deixar a casa em ordem. É a missão dos atuais governantes, aqui ou em Itapecerica da Serra.

Grosserias, impaciência, meias-verdades, análises superficiais e linchamentos morais a agentes públicos e privados vão seguir em alta nesta era do fake News e da intolerância. Nada disso ajuda no salto de qualidade que a cidadania precisa dar.

O que contribui são atitudes maduras de quem tem um mínimo de visão e compromisso com a seriedade, sem abrir mão do direito à crítica, à denúncia fundamentada, com bom senso e razoabilidade, sem apelos banais ao histriônico.

Não é fácil pactuar uma sociedade para o bem comum, mas é o caminho mais curto para superar as crises.

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