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Negligência e imprudência

10/03/19 07:00
João Jabbour

Este começo de ano cheio de tragédias confirma algo grave no comportamento do Brasil e de muitos brasileiros: a negligência e a imprudência. O caso mais recente ocorreu em Bauru, há três dias, com uma senhora que morreu soterrada por uma parede de um prédio em demolição sem alvará para isso.

Mas ocorre diariamente. No trânsito, por exemplo, onde a maioria dos acidentes, fatais ou não, envolve este binômio desastroso. Acontece também em casa, nos incidentes domésticos. E nos grandes fatos, como a negligência de proprietários de terrenos sujos, paraísos do mosquito Aedes Aegypti. Ou, para ser ainda mais chocante, na conservação de barragens em regiões de mineradoras.

Quantas mortes evitáveis!

Esse é o grande problema da negligência e imprudência: mortes e danos em geral à vida poderiam ser evitados se houvesse não apenas cautela e atenção, mais respeito à vida do outro.

A discussão sobre nossas omissões diárias não deve ser apenas de corte técnico, mas, antes de tudo, existencial. Até que ponto nos preocupamos em preservar o bem mais precioso de que dispomos - a integridade física e moral?

É mais fácil fazer vistas grossas, pois não gera trabalho algum. Não é assim que muitos pensam, ainda que secretamente, em seu íntimo irresponsável? Até que alguém ou muita gente morre e o negligente passa a viver um inferno astral.

Há cerca de um mês (08/02), o engenheiro agrônomo aposentado Jorge Alberto Soares publicou artigo na página 2 deste jornal relatando um fato exemplar. O texto tinha relação com o clamor da tragédia de Brumadinho. Certa ocasião (década de 60), Jorge foi solicitado pelo DAE a dar seu aval ao aumento de altura da barragem de captação de água do Rio Batalha. Recusou-se, por antever os riscos, e sugeriu a contratação de um estudo técnico especializado. Evitou, possivelmente, um acidente que poderia ceifar vidas de quem trabalhava no local, além de acarretar desabastecimento de água e danos ambientais. Foi previdente. E isso não é nenhum sacrifício!

O zelo com aquilo que é de nossa responsabilidade (e até mesmo o que não é) é um gesto humano, digno, acima de tudo.

A sequência de exemplos trágicos desperta, tardiamente para quem foi vítima, uma discussão sobre como o Brasil está assentado em gambiarras, precariedades, em malfeitos, engodos e enganações. A cultura do 'meia-boca''.

Preste atenção! Em muita coisa de nosso cotidiano, seja produto ou serviço, o trabalho não é de primeira, não utiliza os melhores materiais, muito menos a melhor técnica e normas de segurança. E, numa reação em cadeia, explodem aqui e acolá.

A esperança, agora, é que depois de décadas adormecido o tal 'gigante', que dizem sermos, queira se autoavaliar. A eleição criou essa expectativa, sem bem que os primeiros movimentos da 'nova' realidade não são nada promissores.

Negligência significa desleixo, descuido, falta de zelo e também desatenção, menosprezo. Esse desdém com o próximo é o que temos percebido como pano de fundo na sociedade em geral.

Então, volto à afirmação de que as tragédias não se resumem a uma abordagem técnica sobre causas e efeitos. É cultural. É de nosso processo civilizatório que, nitidamente, estacionou e, de tempos em tempos, experimenta recuos terríveis, enquanto outros povos avançam. Somos um país pobre não apenas por conta da economia estagnada, mas por uma crise moral profunda.

A desídia ainda vai matar muita gente.

E, talvez, enviar outras tantas para a cadeia.

 

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