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O exemplo (não) vem de cima

24/03/19 07:00
João Jabbour

Quando um jovem antropólogo perguntou a um chefe indígena como ele administrava seu povo, sua resposta foi exemplar. "Quando o pátio central da aldeia precisa ser limpo, eu pego o meu facão e inicio a tarefa. Pouco a pouco, os outros chegam, e logo todos estão fazendo o que deveria ser feito", disse o cacique.

Esta pérola ilustra o famoso ditado "o exemplo vem de cima" e foi descrita pelo antropólogo Roberto DaMatta em artigo, há exatamente um ano, nesta mesma época de Páscoa.

Pois o ditado, no sentido mais nobre que ele pode oferecer, foi às favas no Brasil. Não há quase nenhum bom exemplo vindo de cima.

Os mais recentes movimentos na República que voltou a ser bananeira, ocorridos nesta semana (para ficarmos em um período curtíssimo de tempo), são horrorosos, vis, medíocres, desalentadores.

Grande parte dos homens e mulheres que estão à frente do Estado brasileiro, no Executivo, Legislativo e Judiciário, é medíocre e despreparada para ocupar os postos onde se encontra. Os conquistou apenas por ser mais esperta do que os demais. Não por ser mais competente e preparada.

Não há quase nenhum bom exemplo vindo de cima...

Essa realidade não é exclusividade dos atuais lá "de cima". Vem de muito longe, pois se os anteriores também fossem consequentes e decentes, teriam legado um país melhor a seus sucessores. Pensar nas futuras gerações é predicado de estadista e de grandes personalidades, figuras que raras vezes tiveram a oportunidade de ocupar os mais altos postos do Estado brasileiro.

Quando analisamos a bandalheira geral em que nos metemos, quase sempre dividimos a conta conosco mesmo. Afinal, somos nós que elegemos os que fazem as leis, as aplicam e fiscalizam. Mas, convenhamos, seria bem mais construtivo e célere a uma sociedade se os que detêm o poder fizessem a coisa certa, porque seus exemplos são regiamente seguidos ou usados como suporte moral aqui na vida real, para o bem e para o mal.

Com base em minha intuição (único instrumento de que disponho para balizar meus palpites), as sandices e crimes a que temos assistido por parte de gente anônima certamente guarda relação direta com as declarações, posicionamentos e atitudes dos poderosos de plantão. E após as tragédias e crimes bárbaros, ficamos aqui dissecando as vidas destas bestas humanas que matam por matar. Matam por matar ou será que eles têm seu tormento existencial influenciado pela sociopatia do colarinho branco?

Você não acha estranho que o sociopata tenha o ego tão exacerbado e não tenha apreço algum por predicados morais, sentimentos e opiniões das pessoas comuns exatamente como tantos daqueles que frequentam quase que diariamente o noticiário político dos jornais?

"O exemplo que vem de cima" não deve ser entendido como um preceito de como devemos nos comportar. As relações sociais e políticas se horizontalizam a cada dia e nosso papel não deve ser o de esperar que as ordens venham de cima para obedecermos cegamente. Há um limite entre imposição de ideias e regras e a convivência democrática. Ocorre que estamos fora de qualquer limite.

A Constituição é rasgada diariamente por governantes, legisladores e até por magistrados, que defendem apenas suas visões particulares do mundo e interesses localizados e corporativos.

Então, o que esperar de gente que já tem predisposição ao erro por falta de estrutura mental para viver a vida com respeito e dignidade? Nada!

Pagamos o preço pela absurda irresponsabilidade de todos enquanto sociedade apática e desinteressada, mas, principalmente, pelo desalento que vem de cima.

Porque o primeiro gesto para mudar uma realidade deve vir de quem comanda. E isso começa na família! O certo e o errado, para efeito civilizatório, todos, sabemos.

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