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Pirâmide invertida

07/04/19 07:00
João Jabbour

Uma oportuna matéria da BBC Brasil, nesta semana, informa que pela primeira vez na história há mais idosos no mundo do que crianças pequenas, segundo a ONU. São 705 milhões de pessoas acima de 65 anos contra 680 milhões entre zero e quatro anos. Essa desproporção simboliza uma tendência que os demógrafos vêm acompanhando há décadas: na maioria dos países, vivemos mais e temos cada vez menos filhos.

A reportagem diz ainda que em 1960 a taxa mundial de fecundidade era de quase cinco filhos por mulher, baseando-se em números do Banco Mundial. Quase 60 anos depois, caiu para apenas 2,4 por mulher. Ao mesmo tempo, os avanços socioeconômicos beneficiaram quem nasceu nesse período. Em 1960, as pessoas viviam em média pouco mais de 52 anos; a expectativa de vida atual atingiu 72 anos em 2017.

A grande questão é: como um mundo com mais idosos do que crianças pode se sustentar economicamente a médio e longo prazo? Quantos estarão disponíveis para trabalhar na fase adulta e, assim, manter em crescimento a riqueza de um país e a aposentadoria dos que já cumpriram suas obrigações com a sociedade?

Isso remete, por óbvio, à discussão da reforma da Previdência no Brasil, que está na ordem do dia nem tanto por isso e mais pelos rombos causados em anos passados. Mas a inversão da base de nossa pirâmide populacional também é fato. São os desafiantes paradoxos da civilização moderna.

A taxa de natalidade é menor nos países mais ricos porque as pessoas deixam para ter filhos mais tarde e, com isso, os têm em menor quantidade. Dedicam-se mais à sua própria experiência de vida por terem mais opções e obrigações que os avanços tecnocientíficos proporcionam. Viver fica a cada dia mais caro. Criar e educar crianças em novos padrões, nem se fale. Resultado: menos filhos.

E um padrão de vida melhor significa que as pessoas vivem mais. O maior exemplo é o Japão, onde a expectativa de vida é de quase 84 anos (a mais alta do Planeta). Lá, os idosos somam 27% da população - também a maior taxa do mundo! E a população japonesa com menos de 5 anos é de 3,85%.

Talvez por motivos inversos aos dos grandes centros, principalmente em razão da pobreza, o Brasil também figura entre os países que apresentam queda acentuada da taxa de fecundidade. A taxa brasileira, de 1,7, está abaixo do nível de reposição populacional, de 2,2. Taxa de fecundidade é uma estimativa do número de filhos que uma mulher tem ao longo da vida.

Em 1960, nossas mães e avós tinham em média 6,3 filhos ao longo da vida. Quem tem mais de 40 ou 50 anos tem na própria família uma prole grandiosa ou viu pais com 6, 7, 8, 10 filhos no próprio quarteirão onde morava. Meus pais tiveram 5 filhos, mas os pais de meus pais tiveram cerca de 10 por casal.

A versão popular desta questão dá conta de que antigamente não havia nem televisão, então, fazer filhos era o que restava... Claro que há um simplismo hilariante nessa premissa, mas ilustra.

Nunca a música "Pare o mundo que eu quero descer...", de Silvio Brito, lançada há 45 anos, fez tanto sentido: "Tem que pagar pra nascer// Tem que pagar pra viver// Tem que pagar pra morrer..."

Outra música, essa de Odair José, tem relação com a nossa conversa e igualmente é da década de 70 (1973): "Pare de tomar a pílula// Pare de tomar a pílula// Pare de tomar a pílula// Porque ela não deixa o nosso filho nascer". A famosa pílula anticoncepcional, que mudou o comportamento sexual, foi lançada no início dos anos 60 e fez com que nossos pais e avós começassem a reduzir as pencas de filhos.

Agora, começamos a ficar órfãos de nós mesmos.

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