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Rosa

21/04/19 07:00
João Jabbour

Enquanto não encontramos o belo no presente nem o avistamos em um horizonte próximo, recorramos ao passado das artes, das belas artes. É uma forma de resistir. Com a flor, com amor, com afeto, com Rosa e Pixinguinha/Otávio de Souza.

"Tu és, divina e graciosa

Estátua majestosa do amor

Por Deus esculturada

E formada com ardor

Da alma da mais linda flor

De mais ativo olor

Que na vida é preferida pelo beija-flor

Se Deus me fora tão clemente

Aqui nesse ambiente de luz

Formada numa tela deslumbrante e bela

O teu coração junto ao meu lanceado

Pregado e crucificado sobre a rósea cruz

Do arfante peito seu

Tu és a forma ideal

Estátua magistral oh alma perenal

Do meu primeiro amor, sublime amor

Tu és de Deus a soberana flor

Tu és de Deus a criação

Que em todo coração sepultas um amor

O riso, a fé, a dor

Em sândalos olentes cheios de sabor

Em vozes tão dolentes como um sonho em flor

És láctea estrela

És mãe da realeza

És tudo enfim que tem de belo

Em todo resplendor da santa natureza

Perdão, se ouso confessar-te

Eu hei de sempre amar-te

Oh flor meu peito não resiste

Oh meu Deus o quanto é triste

A incerteza de um amor

Que mais me faz penar em esperar

Em conduzir-te um dia

Ao pé do altar

Jurar, aos pés do onipotente

Em preces comoventes de dor

E receber a unção da tua gratidão

Depois de remir meus desejos

Em nuvens de beijos

Hei de envolver-te até meu padecer

De todo fenecer"

João Carrara e Hilda Campos cantaram essa declaração de amor à mulher, sábado da semana passada, no Avenue Pub, e a maestrina Sônia Berriel então me sugeriu uma abordagem aqui, enquanto ouvíamos encantados.

A letra reproduzida no papel é infinitamente menos tocante do que na palavra cantada de João e musicada por Hilda. Mas, ainda assim, repare que linda composição, que singeleza envolvente, um bálsamo aos nossos ouvidos cansados de tanto ruído inútil e inconsequente.

"Tu és, divina e graciosa

Estátua majestosa do amor

Por Deus esculturada..."

Com meus amigos Cláudio Ricci e João Oliveira comentávamos, naquela noite de MPB, na mesma mesa de bar, entre umas biritas e outras, que estamos, teimosamente, esperando a volta das grandes letras, das melodias que falam por si e nos fazem levitar de tanta emoção e paixão, hoje em dia sufocadas "pela feia fumaça que sobe apagando as estrelas..."

Não vemos mais surgir poetas e os deuses da música estão de cara amarrada conosco. Os tímpanos da multidão são obrigados a suportar pancadas nos instrumentos musicais e berros histriônicos ao microfone, salvo algumas exceções. Até quando?

"Ah, você vive buscando a solução no saudosismo e isso não move o mundo...", podem me dizer, como já disseram. Sim, mas a força da vida é a soma do que produzimos em todas as épocas. Além do mais, não estou preocupado, neste instante, em fazer revolução de nenhuma espécie a não ser compartilhar um pouco da face singela da natureza humana. Já é uma grande coisa.

Platão sugeriu que a música tem o poder de produzir estados emocionais no ouvinte e gerar/provocar pensamentos. Estados emocionais, no mínimo, mexem com a letargia, fazem bem de alguma forma, mesmo quando ouvimos uma música triste. Ou que seja apenas pelo prazer ocioso da sonoridade, como dizia Aristóteles, discípulo de Platão. Afinal, a vida não é só reflexão.

Apesar de evocar emoções, a música não substitui, evidentemente, as respostas comportamentais da vida real. Não podemos reagir a tudo cantando trechos de músicas, mas podemos seguir "caminhando e cantando e seguindo a canção..."

"Por que não, por que não?..."

Se "...uma canção me consola."

 

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