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A dança do bate-cabeça

Zarcillo Barbosa

Lembrei-me do headbanging, espécie de dança inventada pela banda Led Zeppelin (1969), na sua primeira turnê. O auditório acompanhava o ritmo do rock com os espectadores batendo cabeças para produzir som. Depois de muitos casos de traumas crânio-encefálicos e perdas momentâneas de consciência, esse novo instrumento sonoro de execução coletiva, teve que ser abandonado. O mesmo vai ter que ocorrer com os headbangers do governo Bolsonaro. Na condição de ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni teve que assumir o papel de intérprete dos ruídos produzidos.

A começar pelo próprio presidente da República, que se "equivocou" ao anunciar aumento na alíquota do IOF, para compensar "inesperados" subsídios às empresas instaladas na Amazônia e no Nordeste. Seriam parte da herança maldita de Temer. Ele mesmo, Bolsonaro, sancionou a lei, que não traz nenhuma novidade. Apenas prorroga incentivos criados há mais de cinquenta anos. Aumentar o IOF é que seria incongruente com a promessa de campanha, repetida como um mantra, de não aumentar impostos.

Sobre a anunciada redução da alíquota do IR para 25%, Onyx teve que dizer que ainda é apenas uma "vontade" do presidente, mas que não pode ser implantada agora para não comprometer as contas públicas. Apesar das "explicações", a informação que circulou nos bastidores é de que Bolsonaro vem entrando em atrito com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e seus auxiliares. No caso da reforma da Previdência, por exemplo, o presidente estaria disposto a apresentar ao Congresso uma proposta menos dura que a da equipe econômica. Ele voltou a falar na nova idade mínima para aposentadoria de 62 anos para homens e 57 anos para as mulheres. A proposta que está para ser votada prevê 65/63 anos. Mas ela só vale de verdade para quem é mais jovem e não se beneficia da regra de transição. Para quem está há alguns anos da aposentadoria, teria apenas que pagar um pedágio de 30% sobre o tempo que falta.

Para completar, o presidente decidiu dar um pitaco sobre a negociação entre a Embraer e a Boeing. Ele não conseguiu explicar o que realmente o incomoda no acordo. O máximo que conseguiu foi aumentar a insegurança de se fazer negócio no Brasil. As ações da Embraer despencaram mais de 5%. O mal-estar gerado provocou o sumiço de Paulo Guedes na sexta-feira, que cancelou todos os compromissos.

Bolsonaro vira fonte de fake news e dá trabalho para o seu porta-voz-de-vontades, Onyx Lorenzoni. No andar de baixo a ministra Damares Alves anuncia "uma nova era para o Brasil: menino veste azul e menina veste rosa". Uaau! Meninas de Barbie e Hello Kitty e meninos de Capitão América. Depois que se popularizou a ultrassonografia, nos anos 1980, como teste pré-natal, os pais descobriram o sexo do bebê e foram direto às compras, presas fáceis das convenções de mercado. Nos países adiantados essa moda já passou. Os pais optam por não saber o sexo e adotam o laranja, o roxo ou qualquer outra cor para os enxovais.

Acabou aquele pensamento conservador que coloca meninos e meninas numa caixinha determinando que só podem fazer uma coisa. É direito fundamental da infância: toda criança tem o direito de brincar e vestir o que ela quiser. A ministra afirmou que a frase era uma "metáfora" contra o que chamou de "ideologia de gênero". Piorou. A criança deve crescer num lar que lhe ofereça oportunidades para se desenvolver como ser humano. Cada família tem seu modelo particular de educar seus filhos.

Outro espetáculo ao som trombudo do bate-cabeça, foi dado pelo discurso biruta do chanceler Ernesto Araújo, que misturou trechos em latim, grego e tupi-guarani; juntou frases de Raul Seixas e Renato Russo, com pitadas de Olavo Carvalho e São João. Ele se referiu a globalismo como uma espécie de conluio para destruir a civilização ocidental e seus valores, substituindo-os por algum tipo de governo mundial socialista. Qualquer secundarista sabe que o globalismo é produto do avanço das tecnologias. Elas possibilitaram o surgimento espontâneo de uma sociedade em rede. Dele, globalismo, ninguém foge, sob pena de estacionar no tempo e apodrecer no localismo.

O que se espera, de pronto, é que os ministros assumam a importância dos seus cargos e parem de se comportar como adolescentes procurando intrigas nas redes sociais. Contratem jornalistas para gerenciamento dessa entropia. Principalmente o presidente. Tuitar pode ter sido importante na campanha, quando não se exige responsabilidade. O que está em jogo, agora, é o interesse do país. As pessoas ainda estão suscetíveis a extremismos e reações descompensadas. Ponderação e prudência, serão bem-vindos. A lua de mel acaba. Ao trabalho.

 

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