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Tribuna do Leitor

O carvalho e a batatinha

Márcio M. Carvalho

No último domingo, nesta coluna, encontramos um interessante texto do militante de esquerda Antonio Pedroso Jr, o "Chinelo", sob o tema AI5 e a atuação do sargento Darcy Rodrigues.

Neste texto encontramos alguns esclarecimentos e informações corretas. No entanto também há várias omissões e alguns equívocos. Acredito que pelo engajamento do autor, que é inclusive autor de um livro sobre a vida clandestina de Darcy, a parte negativa da história não foi inteiramente contada.

Embora o texto não cite, contradiz em quase sua íntegra outro de nossa autoria sob o título: "AI5 lições para não esquecer", onde não tivemos em uma lauda, a pretensão de explicar o fato histórico, simplesmente a contradição do protesto contra a violência partir de alguém que escolheu a luta armada, o que por si só já denota um contrassenso.

Realmente como cita o "Chinelo" a justificativa oficial para o AI5 foi o discurso do deputado Márcio Moreira Alves, com ofensas ao Exército. No entanto, o que foi omitido, é que em agosto de 1968, portanto meses antes do AI5, o quartel do II Exército foi atacado por terroristas utilizando um carro bomba e matando um sentinela, o sd. Mario Kozel Filho, o que, sem dúvida, foi a causa do AI5, ofensa muito maior que o discurso de Márcio M. Alves, sendo este último apenas a gota d'água.

Acontece que, desde 1962, a luta armada já existia, com o início de células de guerrilha de Clodomir Morais e foi, sem dúvida, uma causa importante do levante militar de 64 e continuou recrudescendo dentro do período militar.

Correto é dizer que o sgt. bauruense Darcy Rodrigues não participou diretamente do atentado ao II Exército, bem como Lamarca e Dilma Rousseff. No entanto, todos militavam na mesma organização VPR antes do AI5, ou seja, eles são também causa e não consequência do AI-5.

Parcialmente correto é dizer que a comissão da verdade não indenizou, pois as pessoas que sofreram tortura ou supressão de direitos, constatados na comissão, foram indenizadas sim por vários instrumentos legais, inclusive ações na justiça.

Certo é também que as vítimas, como o taxista morto na fuga de um assalto a banco pelo sargento Darcy e a família do soldado Mario Kozel, morto no atentado terrorista da VPR, não foram indenizadas pela comissão, enquanto Dilma Rousseff e Darcy foram.

Incorreto também é dizer que Leonel Brizola era a favor da luta armada, já que no livro sobre a luta armada, a historiadora dra. Denise Rollemberg narra a utilização por Brizola da fábula gaúcha do Carvalho que demora décadas para crescer, comparado por ele a guerrilha e o levante popular como foram anos depois as diretas já e os cara pintadas, comparado as batatinhas de fácil e rápido crescimento.

A participação de Brizola na guerrilha foi sempre "circunstancial" após 68 e ele criticava a exportação do modelo cubano de focos de guerrilha, a um país continental como o Brasil e na recíproca era chamado por Fidel de "el raton", porque não prestava conta do dinheiro enviado por Cuba a guerrilha. Era constantemente utilizado para outras ações de oposição não armada. Existia uma diferença essencial: Brizola tinha como objetivo restaurar a democracia e não um regime de ditadura de esquerda como os da luta armada.

O texto do "Chinelo" é ainda absolutamente incoerente quando atribui aos movimentos de 2016 impeachment segundo a Constituição e 2018 eleições gerais livres e democráticas como "golpe". Se não vejamos: 2016 segundo a cartilha esquerdo -petista é golpe, porque a presidenta foi eleita mesmo com o estelionato eleitoral praticado. Em 2018 é "golpe" porque um presidente foi democraticamente eleito e é de direita.

A lição mais importante é que os fins nunca justificam os meios, e que nenhuma ideologia supera o valor da vida humana e que o terrorismo, assalto e sequestros nunca foram e nunca serão a melhor forma de luta.

O AI5 levando a ditadura, com censura, tortura são uma página negra na nossa história, mas o terrorismo também é de mesma dimensão, tão condenável quanto a ditadura e responsável pelo seu recrudescimento e por sua longa duração. No entanto, a esquerda nunca fez uma mea-culpa disto e nem o sr. Darcy Rodrigues.

 

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