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'A mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta'

Reinaldo Cafeo

Vamos dar um desconto pelo noviciado, mas está mais que evidenciado que o Presidente Jair Bolsonaro não terá vida fácil. Um pronunciamento aqui, um desencontro ali, uma nomeação acolá, tudo isso pode, eu disse pode, tirar o foco do que mais importante o Brasil precisa neste momento: encontrar o caminho da recuperação econômica.

Bolsonaro de certa maneira paga um preço por sua pregação de moralização do setor público. Atacar a corrupção e abandonar a chamada velha política, entre outros atributos, fizeram com ele chegasse à Presidência da República e agora terá que prestar conta. Fica mais que evidenciado que o "novo" quando é executado pelo "velho viciado" será em algum momento contaminado.

E é aqui que entra a sabedoria dos líderes. Bolsonaro terá que unificar o discurso de sua equipe. Terá que conter vaidades, terá que demonstrar que assumir o poder não é sinônimo de estar acima do bem e do mal e ele próprio deverá se recolher, ser mais reservado, caso contrário gastará tempo precioso justificando os atos de seus assessores diretos.

Se de um lado utilizar as redes sociais ajudou a elegê-lo, estas mesmas redes sociais podem jogar contra seu governo. É imperativo não perder o foco. As chamadas "tonterias" (bobagens) precisam sair de cena. Polemizar com temas de menor importância neste início de governo não agrega absolutamente nada, cria sim incertezas que podem colocar por terra toda a expectativa criada em torno do que Bolsonaro passou a representar quando foi eleito.

Bolsonaro (e sua equipe), em minha modesta opinião, deve focar nos três tópicos principais que os fizeram tornar-se Presidente do Brasil: segurança pública, combate à corrupção e a introdução de um novo modelo econômico. Quanto aos demais setores, que primeiramente tenham os projetos e metas e depois discutam com a sociedade.

A questão econômica em particular é a espinha dorsal de tudo que ele pensa em realizar em seus quatros anos de mandato. A economia voltando a crescer e com ela a volta do emprego e renda, não há dúvida que tudo o mais fica mais fácil de executar. Cabe ao Presidente Bolsonaro dar o tempo necessário para que a equipe econômica conclua seus planos. Não deve antecipar decisões que precisam ser tomadas a partir da visão técnica. Não queira tratar de temas que não domina, simplesmente indique o técnico que poderá esclarecer com mais propriedade.

Atacar imediatamente o déficit público garantirá a retomada da confiança dos agentes econômicos e o novo ciclo de prosperidade pode ser iniciado em curto espaço de tempo. Foco, portanto, na reforma da Previdência Social.

Chegar em fevereiro, quando o Congresso Nacional inicia seus trabalhos legislativos, desgastado com a opinião pública por erros na condução de sua equipe de ministros, dará munição suficiente aos opositores ao governo Bolsonaro.

Vale sempre lembrar que foram dois anos de recessão, mais dois anos de baixo crescimento, o que resultou em mais de 12 milhões de desempregados, com crescimento exponencial da informalidade, levando ao caos social, portanto, não há tempo a perder. Como diz a frase de 62 a.C. de Júlio César em relação a uma possível traição de sua esposa Pompéia: "A mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta". Ações falam mais do que intenções.

O autor é economista, articulista do JC. Está no Youtube no canal Planeta Economia.

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