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Opinião

Estado, universidade pública, professores e os alunos

Paulo Cesar Razuk

Hoje três preocupações estão na ordem do dia das universidades públicas: o seu financiamento pelo Estado, a revitalização dos cursos de graduação e o desenvolvimento e a valorização dos recursos humanos. Mas, sem dúvida, de todos, o grande problema é o do financiamento da universidade pública. Pode-se sonhar com a graduação e com a valorização dos recursos humanos, no entanto, se o problema do financiamento não for solucionado, de maneira definitiva, não haverá sonho que resista. Hoje a universidade pública experimenta a carência de professores e a obsolescência de seus laboratórios.

Outro problema que atravanca o sonho é o corporativismo. A universidade produz discursos progressistas, mas a prática é conservadora. Uma avaliação profunda, clara e sincera, constatará que alguns cursos precisariam ser profundamente discutidos e reformulados, não porque tem pouca procura, não é esta a questão, mas porque, efetivamente, não estão mais contribuindo para a formação de pessoas que possam estar modificando, de forma substantiva, a sociedade.

De qualquer forma as coisas estão relacionadas, não se pode exigir que a universidade se adapte ao mundo moderno, renovando o conteúdo de seu ensino quando a verba destinada ao seu funcionamento for mantida pelo Estado em estagnação sufocante. Este país não terá futuro sem uma inflexão na atual política de educação e sem universidades públicas fortalecidas e esse fortalecimento implica na consagração do dever do Estado sobre o ensino público, gratuito e de qualidade.

É preciso avançar no sentido de aumentar o tempo que o professor dedica a cada estudante, dentro e fora da sala de aula, para que o ensino se torne mais produtivo. A escassez de recursos, por mais relativa que seja, tende a restringir a duração deste contato. As formações lentas e longas, tanto mais necessárias nas ciências quanto maior é o progresso do conhecimento, só são possíveis com uma expansão das despesas da universidade pública.

Na verdade, os orçamentos da União e do Estado dependem de um equilíbrio precário entre as diferentes forças políticas em jogo e em particular, da importância que os políticos atribuem ao desenvolvimento da cultura, do ensino e da pesquisa. Até por conta desta insensibilidade, vive-se um momento histórico de desmonte das universidades públicas, de desânimo de professores e servidores e de dificuldades de inclusão dos jovens egressos no mundo do trabalho formal. E é, exatamente neste momento, que a sociedade espera um sistema universitário mais sensível às necessárias transformações por que deve passar o País, a fim de se tornar mais desenvolvido, soberano e com menores diferenças sociais.

A universidade precisa ser mais participativa e para a consecução de suas finalidades educativas, deve reforçar o seu papel de instituição pública implementando ações que contribuam para a formação do cidadão capaz de atuar no seu contexto social de forma competente tecnicamente e comprometido com a construção de uma sociedade mais justa, solidária e ética. A educação superior pública deve, portanto, estabelecer princípios que guiem não só a formação técnico-científica, que o mundo do trabalho requer, mas também, a formação do cidadão que uma sociedade inclusiva exige.

Eu sinto que não é somente a formação discente que precisa ser reestruturada, os docentes também terão que se preparar para viver essa nova proposta onde a responsabilidade pela transferência do conhecimento passa a ser do aluno. Uma proposta com abordagem construtivista. Heráclito, o sábio filósofo pré-socrático, já enunciava o que hoje se propala com frequência: "para os que entram no mesmo rio, afluem sempre outras águas" e isto também se aplica a universidade: as paredes do prédio escolar podem ser as mesmas, mas as pessoas, o tempo histórico, os fatos e acontecimentos são sempre outros. É preciso capacitar os alunos a atuar em um mundo em permanente mudança, portanto, ter como premissas: ensiná-los a aprender a aprender, ensiná-los a aprender a ser, ensiná-los a aprender a fazer, ensina-los a aprender a viver juntos. Tais aspectos convergem para a formação de alunos com visão científica, críticos, reflexivos, autônomos e éticos, mas, que compreendam que a verdade científica é provisória e que reconheçam a dimensão social da profissão que escolheram.

O autor é professor titular aposentado do Depto. de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp.

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