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O perigo da gestão de 'Selfie'

Reinaldo Cafeo

Com o uso massificado dos aparelhos celulares e com ele o oferecimento de aplicativos, principalmente câmeras fotográficas e de filmagem, o chamado "selfie" (autorretrato) virou moda. Além das fotografias, os vídeos instantâneos passaram a ser rotina na vida das pessoas. Assim, temos o "selfie" de fotografia e o "selfie" de vídeos.

Observando as recentes eleições tanto na Câmara dos Deputados como no Senado Federal, ficou evidenciado que a produção dos vídeos instantâneos será muito utilizada pelos congressistas e naturalmente postados nas redes sociais. Neste dia das votações, muitos políticos foram flagrados pelas câmeras das TVs fazendo seus vídeos enquanto as discussões se mantinham acaloradas na tribuna.

Mesmo entendendo esta nova realidade, é importante alertar sobre alguns aspectos fundamentais no uso desta, diria, forma de comunicar. Isso vale também para o mundo corporativo.

A linguagem deste novo mundo tem como característica a mensagem curta. O usuário das redes sociais não tem "paciência" para assistir vídeos longos. Se o fizerem será em algum momento de lazer ou em um assunto de relevância.

Exatamente aí é que reside o perigo. A capacidade em resumir determinados temas ou até mesmo de retratar determinados fatos é para poucos. Quem atua no mundo da comunicação sabe bem como é difícil lidar com a informação, fazendo-a chegar ao destinatário final sem ruídos.

Pois bem: imagine estabelecer juízo de valor instantaneamente sobre comportamento de colegas, sobre algum tipo de diretriz, até mesmo sobre uma determinada divergência ideológica sem o devido preparo. A discussão será rasa.

Se levarmos em consideração que temas estruturantes para o Brasil deverão ser discutidos à exaustão, fica evidenciado que se o "selfie" prevalecer tudo ficará mais difícil. Imaginem discussões superficiais em torno da reforma da previdência social ou da reforma tributária. O resultado não será o esperado.

Por muito menos o próprio presidente Bolsonaro, que utilizou com maestria as redes sociais, tem sido vítima dos ruídos de comunicação nessas novas mídias. Isso vale também para o mundo corporativo. Gestão de "selfie" não garantirá o estabelecimento de estratégias de longo prazo e o devido aprofundamento dos principais temas da gestão empresarial.

Devemos evitar o uso errôneo dos recursos tecnológicos, tendo como premissa que cada tipo de mídia tem sua finalidade. Um instrumento que serve somente como chamada para um tema mais robusto, não pode ser conclusivo em si.

Vale ainda destacar que o compartilhamento destas mensagens é instantâneo, e muitos que as reproduzem sequer tomam cuidado quanto à veracidade e a dimensão do conteúdo veiculado. Podemos incorrer no erro grave, que é o de estabelecer juízo de valor, sem analisar todos os ângulos da questão.

Na gestão da coisa pública ou privada se não cabe à gestão de bombeiros, aquela que quem comanda a empresa vive apagando incêndios, tampouco cabe à gestão de "selfie".

Estamos em momento delicado em que, se os temas relevantes tanto no setor público como nas organizações não forem discutidos com profundidade, os resultados colhidos serão superficiais e a tendência é que andemos para trás. É preciso ir além dos "selfie". Campo perigoso. Vale o alerta.

O autor é economista, colaborador de Opinião. Está no Youtube no canal Planeta Economia.

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