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Bosson virou um inferno

Roberto Magalhães

Uma estátua numa praça, coisa banal. Tão previsível quanto chuva no molhado ou feijão no arroz. Mas não aquela do diabo, com seus enormes chifres, gargalhando em pose de selfie. Foi assim que a estátua amanheceu, sem discurso ou homenagem, bem no centro da praça de Bosson, uma cidadezinha perdida num cantinho desse mundão.

Estranheza, perplexidade, indignação e, sobretudo, medo. Ninguém conseguia entender o propósito da novidade. A prefeitura estaria homenageando o Capeta? Loucura.

Pelo que se sabe, monumento é coisa pra gente do bem. Santo orando, general cavalando, celebridade celebrando, tudo bem, mas Coisa-Ruim selfiando... Não, isso era demais.

Ofendidos, os religiosos da cidade desenrolaram um quilométrico abaixo-assinado. Um grupo de artistas, em ruidosa passeata, defendeu a liberdade de expressão. Houve quem se divertisse, outros espumaram de ódio. O prefeito eximiu-se de culpa: nenhuma ligação tinha com o Demo.

Agora, se os vereadores aprovaram (fazer o quê?), ele, executivo, executou. Os vereadores protestaram. Tinham aprovado sim, mas uma estátua de importante artista da capital sobre o tema "Tecnologia e Costumes". Dava pra imaginar que isso colocasse o Tinhoso no meio da praça?

Foi aí que surgiu, ninguém sabe de onde, uma teoria sinistra. Quem selfiasse com o Capeta passaria a ter dele legítima proteção. Quem se recusasse, coitado, arcaria com as consequências. Os filósofos da cerveja encareceram, em cada mesa de boteco, a importância de uma aliança com o Belzebu: Agradar a quem nos pode fazer mal é, no mínimo, uma atitude inteligente, diziam.

Certa lógica, convenhamos, nisso há.

Por medo ou por oportunismo, as selfies com o Capiroto bombaram nas redes sociais. Gente da redondeza e do mais longe começaram a chegar. A praça virou notícia nacional. Filas se formavam para conseguir o autorretrato. Ambulantes vendiam quinquilharias: fitinhas de pulso, diabinhos (santinhos jamais) e, no lugar de água benta, muita cachaça. Noivos moderninhos casavam-se ( sem padre, claro) ao pé da estátua. À noite, a praça ficava do jeito que o diabo gosta: drogas, álcool, vagabundos, prostitutas, orgias sexuais. Um inferno.

O bispo horrorizado não teve dúvidas, comunicou tudo ao Papa. O pontífice, homem santo e sábio, deu risada e nada fez. A um assessor apenas comentou: "O ponteiro está andando, o que hoje privilegia os primeiros, amanhã será ridículo para os últimos. Não é isso o que acontece com a moda?"

Dito e feito. Um mês depois, tudo voltou à normalidade. Nenhum cristão quis mais selfiar com o Sarnento. Coisa ridícula. A cidade saiu das manchetes, a polêmica acabou. Bosson dormia em paz. Mesmo assim, os defensores da família, da moral e dos costumes lutam até hoje contra o diabo na praça. Ameaçam, até mesmo, construir um muro, caso o Zarapelho ali permaneça.

Rindo de tudo, o Senhor das Trevas não reclama dos que dele, na praça, se afastaram. Sabe que, tão rápido quanto foram, voltarão aos seus braços e comando. Sempre foi assim e parece que assim sempre será.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais - [email protected]

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