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Opinião

Roçando a Língua de Bilac

Maria da Glória De Rosa

Leandro Karnal escreveu no Estadão um artigo sobre o domínio da língua portuguesa e seus códigos distintos em situações variáveis. Sempre me interessei pelo assunto e entusiasmei-me quando percebi que meu ponto de vista ia ao encontro do articulista. "Minha língua não é túmulo nem subjetividade absoluta. A comunicação é fluida, porém não é só minha nem pertence aos gramáticos," no dizer de Karnal. Meus alunos da universidade sempre se agastavam ou amofinavam porque lhes corrigia os erros de português. Acreditavam que essa tarefa não me dizia respeito, entretanto, arrazoava sempre com eles.

Água mole em pedra dura, pensava eu, tanto bate até que fura! Quem sabe, um dia, pensarão da mesma forma que a professora. Nunca desisti e continuei malhando em ferro frio.

Pois não é que no século 21 a fala empobrecida - segundo Karnal - virou virtude? Lembram-se do cambeta e exibicionista esquerdismo nacional lançando a infeliz ideia de que era preconceituoso fazer uso de um linguajar escorreito? Falar bem, conjugar certo os verbos, colocar os pronomes no lugar adequado era humilhar os simples, os modestos, os desfavorecidos pela sorte. As cartilhas desceram a um nível tão estranho a ponto de pensar-se que estavam criando outra língua. Desde quando falar corretamente é humilhar o próximo? Há momentos em que esse "politicamente correto" cai no ridículo, sem perceber. Sei que, entre outras parlapatices, era para deixar o desapoderado, o espoliado - seja lá qualquer outro tipo de bobagem - falar do jeito que quisesse para não ser traumatizado ou inferiorizado.

Essa ideologia proletária ou socialista, em vigor entre nós durante a era petista, e que exorcizava a "falsidade" dos sistemas que oprimem a existência, teve prosélitos de costas largas. Lembrar o filósofo alemão Theodor W. Adorno (1903-1969), um dos maiores críticos do capitalismo que, em seu livro Minima Moralia apresenta "pequenas morais" como "reflexões sobre a vida mutilada" na qual o indivíduo é atomizado, dividido, fragmentado: a delicadeza dá lugar às relações utilitárias. Por isso, dá para entender algumas de suas colocações como esta: "A linguagem proletária é ditada pela fome. O pobre mastiga palavras para com ela se saciar. Espera do seu espírito objetivo o poderoso alimento que a sociedade lhe nega; enche a boca que nada tem para morder. Vinga-se, por isso na linguagem. Ultraja o corpo da língua que não lhe deixam amar, e repete com violência impotente o ultraje que a si mesmo é feito."

Ideologia à parte, Karnal, em seu artigo, e eu no meu, estamos defendendo a simplicidade dos textos eivados de palavras barrocas, rocambolescas, excêntricas. Observe, caro leitor e leitora, que os concursos atualmente não estão muito preocupados com a interpretação de um texto nem com a compreensão da estrutura da língua, o que é inadmissível. Não rebaixe a língua pátria, mas também não seja pernóstico. Quando me ponho a escutar os pronunciamentos do egrégio TSE não me deixo impressionar por toda aquela verborragia. Não há necessidade dessa loquacidade toda, dessa logorreia. O que se pode falar com meia dúzia de vocábulos vai mais diretamente ao cérebro que frases proustianas. É óbvio que a leitura de Proust, por exemplo, cabe a uma clientela mais elitizada, mais culta. Saber sintetizar, no entanto, também é uma arte. Deixemos de lado esse aranzel pedregoso, como diz Karnal, e vamos direto ao que interessa. Claro que, parafraseando um pensador baiano, prefiro em meus escritos roçar em Bilac do que triscar em Paulo Coelho. Mas, exigir do aluno que use um linguajar correto não é humilhar, não é diminuir. Vamos tentar falar corretamente, sem rodeios. Ir direto ao assunto. Entender o que lê, captar o recado do texto. É pedir demais?

A autora é pedagoga, jornalista, advogada, professora doutora aposentada da Unesp - mg-de-rosa@hotmail.com

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