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Cem dias de Bolsonaro

Zarcillo Barbosa

"Já falei que não entendo de economia". O presidente Bolsonaro deveria ter perguntado no Posto Ipiranga, antes de intervir no preço do diesel. As ações da Petrobras desabaram 8%. A empresa perdeu, em poucas horas, R$ 32 bilhões do seu valor de mercado. Espalhou-se a desconfiança entre os investidores sobre o futuro econômico do país. A Petrobras é uma empresa de economia mista. Corre o risco de responder a processos indenizatórios de acionistas minoritários, no Brasil e no exterior. A União é majoritária e responsável pelas gestões dos seus dirigentes. Mas não é a única dona. O preço do barril de petróleo subiu 32% este ano, no mercado internacional. Os consumidores têm que pagar o preço certo pelo combustível. A proteção de um nicho, como o dos caminhoneiros, equivale a ratear prejuízos para toda a sociedade, inclusive entre os que andam a pé.

O país inteiro já sabia que Bolsonaro nada entende de economia. Na campanha, ele havia se comprometido a perguntar para quem sabe, toda vez que o assaltasse alguma dúvida específica em matéria financeira. O seu Posto Ipiranga seria o ministro da Economia Paulo Guedes, de competência reconhecida e que luta feito um leão pelas reformas que o país necessita para voltar a crescer. O superministro, que está nos Estados Unidos para reunião no Banco Mundial, soube da ingerência do presidente pelos jornalistas que o interpelaram. O prejuízo provocado pelo populismo de Bolsonaro, em favor dos caminhoneiros, não provocou somente a desvalorização das ações da estatal. Atrapalhou a venda das refinarias da Petrobras. A empresa precisa se desfazer de seus ativos, para gerar caixa e poder investir mais na produção, uma das maneiras eficientes para baixar os preços dos combustíveis. Outra estratégia, seria a de incentivar as petroleiras estrangeiras, como a Shell, a importarem diesel e gasolina diretamente de suas refinarias no exterior. O aumento da concorrência interna também força a diminuição dos preços. Mas, ninguém vai se dispor a gastar bilhões de dólares em compra de ativos, importações e estoques, se o presidente adota uma política de intervenção na economia. O que Bolsonaro aprontará amanhã?

Ao comemorar cem dias de poder, o presidente declarou-se o principal opositor da principal proposta que hoje domina as discussões em todas a áreas. "No fundo eu não gostaria de fazer a reforma da Previdência"... "Não é essencial neste momento". Nas redes, Bolsonaro exerce o papel de antipresidente. São 1.500 postagens em cem dias. Vivemos a República dos Tuites: "Vou me arrepender de ter feito xixi na cama quando criança? Saiu, pô!" Golden shower, no Carnaval, é diferente de um inocente pipi. A propósito, recente pesquisa Datafolha mostra que ele teve perda de popularidade mais profunda que os seus antecessores no mesmo período - 30% de desaprovação. Demitiu o ministro da Educação Ricardo Vélez Rodriguez por "falta de capacidade de gestão e sem expertise. " Quem nomeou foi ele mesmo, presidente. Bateu boca com Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados. Orientou os quarteis a comemorar o Golpe de 64.

Mas não se podem desconhecer aspectos positivos da ainda curta administração. O Ministério da Economia, de Paulo Guedes, tem dado respostas seguras sobe os caminhos que o país deve trilhar para sair do atoleiro, além da reforma previdenciária. A pasta da Justiça e Segurança Pública, entregue ao ex-juiz Sérgio Moro, também com missões estratégicas, destaca-se no enfrentamento da criminalidade, cada vez mais forte e organizada. Há avanços. O debate da Previdência já evolui na Câmara - apesar de Bolsonaro. Acontece o mesmo com o pacote anticrime, no Senado.

Na solenidade para marcar os cem primeiros dias do governo, Bolsonaro lançou uma coleção de 18 decretos e projetos, visando, principalmente, a desburocratização. Projeto de lei complementar formaliza a autonomia do Banco Central. É assim que funciona nas principais economias do mundo. Os agentes econômicos não querem correr o risco de ações voluntariosas do governo de plantão sobre a política monetária.

O lulopetismo ganhou quatro eleições seguidas à Presidência, beneficiando-se do crescimento da economia. Bolsonaro ainda precisa buscar esse sucesso, que está ao alcance desde que resolva praticar a boa política, que não é nem velha e nem nova. É a mesma de toda democracia, cimentada em alianças com o Congresso Nacional. Fora daí, o seu futuro é incerto.

O autor é jornalista e articulista do JC.

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